quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

DESAMPARO

Cheguei em Goiânia em primeiro de julho de 2009, esta data é uma entre poucas lembranças nítidas. Com isto posso ser honesto e seguro: primeiro de julho de 2009. Bela data pra se recomeçar! Não? Lembro que a aeromoça disse: 

- Moço, nunca mais faça isto! Você nos deu um grande susto! - me sacudindo, eu sozinho na nave. 

Não sei o que respondi ou se respondi. "Despertei!" Estava drogado demais. Rivotril demais. Três dias ou mais engolindo comprimidos ao bel desprazer? Angústia! Infelicidade! Acho que é assim que deve se chamar. Ah, lembro também da  dona da escola, entrando no quarto, na casa de minha irmã, me entregando o dinheiro... Acho até que as notas estavam com duas dobras. Que ela terá dito mais? Colocou o dinheiro em minhas mãos ou eu tinha um bolso na camisa? Pouco importa! Eu numa cadeira, em frente ao computador... Possivelmente falando um monte para ausentes presentes. Um tanto de besteiras, pois nós,  semimortos, não respeitamos nada. Somos perigosíssimos para o que nos resta de vida, podemos até não voltar para ela. Agora, se alguém me disser com voz incisiva que é tudo coisa da minha cabeça, que isto tudo foi sonho, que a dona da escola nunca foi lá... Posso acreditar! Ah, meus amigos, meu hálito é todo de desistência, mas não me falta um parafuso, talvez falte uma bala aqui ó! Não me venham que estou desistente porque pirei. Vocês é que continuam por piração, piração é saúde, delírio, ignorância, medo... Fé em Deus! Lembro da dona da escola dizendo para eu não me preocupar, acho que com relação às provas de recuperação que eu não fui ou não iria aplicar. Seja como for, ela me absolvia, a dona da escola onde estudei a infância até a oitava série, e naquele agora eu fazia um semestre de professor de Língua Portuguesa. Fosse a sensação de um fiel após pagar a penitência. Não! Não tinha mais condição de ser professor. Deu pani no sistema. Mal tinha condições de existir! E agora escrevo para não beber, preciso parar de beber, e vou colocar... tentar colocar letras no tempo que tenho dado às garrafas para evitar novo curto circuito. Só  por isto! Não há muita esperança para matar em mim: sou brasileiro, mas tenho consciência. Escrever foi o que mais consegui fazer em minha vida, digo, sem parar... Não me levo a sério. Quem levarei? Acabo magoando as pessoas ao redor. Venham letras cansadas, venham! Depois das letras, o que tive de mais constante foi o cigarro, a bebida... Ah, alguém ganha das letras. Por força do destino sou mais filho que escritor. Minha mãe eu tive mais tempo que letras. E o cigarro, anh? Vou fazendo agora um ano sem cigarro. Não! Não preciso de palmas ordinárias! Enfim, a dona da escola! O que será que ela sabia? Sabia que eu estava morto? Vindo me pagar os atrasados e acatando minha ausência no período de recuperação. Sejamos mais precisos e honestos: eu estava meio morto. Lembro também que minha irmã comprou uns livros. E dizia: "Dotoéviki?" pelo telefone. Eu corrigia "Não, Dostoiévski! Diga ao rapaz: Fiódor"  - O vendedor de livros não sabia quem era Dostoiévski. Bem, ele devia saber quem era Augusto Cury! Minha irmã me comprou umas roupas também, eu estava junto, andando com ela no shopping, fazia as atendentes rirem com minha semiconsciência.... Não sei que eu falava, se era simpático ou o quê... Bem, corte com tarja preta: Consegui entrar no avião. E aqui estou, mais de oito anos depois. Agora que começa a complicação. O que recheia este período? O que traz minha cabeça de lá até aqui nesta cadeira? O que ela guarda? Sinceramente, não tenho muito ânimo, mas entre escrever e procurar psicanalistas que leram Augusto, eu prefiro escrever novamente. Assim vou levando enquanto não morro ou me mato. Vamos tentar? Vamos sim, Rodrigo! Vamos sim! Que fazer? Pra animar vamos deixá-los participar um pouco! Vamos deixá-los julgar um pouco! Vamos deixá-los se distraírem com a nossa tragicomédia? Um pouco! Só um pouco!



Nenhum comentário:

Postar um comentário