sexta-feira, 30 de março de 2018

DESNECESSIDADE OU OUTRO CAFÉ (desamparo?)

senhores - chamo-os assim como quem herdou este jeito de evocar os homens em um mundo civilizado antigo... hoje muito distante deste eu que aqui fala. um mundo com que já não sei se concordo! mas chamo-os porque me apetece falar... não porque precise! perdi todos os meus gritos!

de manhã... que manhã? coo o café contra as pequenas mortes percebidas neste lar. portas fechadas, bocas fechadas, letras para dizer "bom dia!", olhares que se deixam prender no nada porque preferiam estar cerrados no sono! corpos que levam sua sede com má vontade até o copo. quizila fraternal!

e os amores? almas longínquas amadas! amores constituídos de timbres e pequenas sugestões dos desejos, das sensações, das fomes, das necessidades enfim. pessoas esculturadas na forma da minha falta... pessoas que amo - será? - por não poderem interferir? quiçá! cansados estamos das interferências físicas, reais, concretas, inoportunas vontades, angústias... alheias que se impõe substancialmente! não tenho suficiente apreço por isto que sou para me dar como um presente. quanta empáfia percebo neste gesto -esboçado mentalmente - de doar-me como benefício, sabido que sou do empecilho que somos! mas me doarei porque de pudores recolhemo-nos de existir. e - puta vida! -como sou existente ainda que a contragosto próprio! e como preciso entregar-me a tudo que não seja a polícia!

acordo com todos os gritos de desaforo, de vingança, de choro perdidos... silêncio intracraniano. acordo quieto, com a paz de um bicho...a paz do não-raciocínio. logo o mundo estúpido, necessário, capital, me pedirá cálculos. logo começarão a me acordar para a decência do mundo que inventou a indecência! abro olhos serenos, desapercebidos que enxergam... como quem lavando as mãos esquece ser as mãos e as vê como uma coisa de si posta na água... e por aí já não se enxerga mais. a sua cabeça é algo seu! o seu coração é algo seu... tudo enfim! cadê você que se possui como algo por dentro, ou por trás, sempre escondido? cadê você que nunca é corpo? que advoga tanto por suas intenções, por sua reputação! cadê você animal? cadê seu desejo pra além do bem e do mal?

ó, deserto em que me encontro! eu que sou este bandido! este marginal incurável! aah começo a acordar, me sinto banido! todas as conversas alheias falam mal de mim em meus sonhos oniscientes. tenho consciência como quem tem culpa. e pela sobrevivência que urge, aprendo a não me importar comigo! não sou como vocês, nobres! me escondo diferente: sou minhas mãos, sou carne apenas, sou meu sexo flácido e rijo, sou este ciclo que me narra tão inconstante da inquietude da fome até a entrega de mim à saciedade que me adormece! sou então, transitório, este pequeno corpo cantor, esta voz, estes sorrisos que saem na distração do meu juízo e que entreguei a pessoas ontem quais jamais me lembrarei. aah! sou a folga do outro que eu seria agora! e você ideal? menos que um vapor! cadê você que se possui como uma ideia e abdicou de ser corpo? você que pensa ter um corpo invés de sê-lo, cadê? não quero ouvir da boca que a sua ideia possui nenhuma palavra, quero o beijo da boca que você é! ah! o que "eu" possuo não me importa! este vazio dono desses aparatos que se inutilizam num mundo sem tato. mais vale mesmo o que eu lambo enquanto língua...

outro café!

Nenhum comentário:

Postar um comentário