quarta-feira, 9 de maio de 2018

AS COISAS QUE NÃO SÃO

o cão acostumado quando toca a sineta da hora do almoço
quando uma criança toca a sineta e a vasilha vazia 

ou nós mesmos quando toca a campainha da possível encomenda
o ápice da esperança
este pequeno instante até que se chegue ao portão
de sermos intimados judicialmente

a sua melhor pintura
a ser seguida pela desilusão
o telefone tocando estridente um engano
enquanto tem fome de alguém do outro lado da mesa

o ápice é o abismo
é quando flagramos que o que pintamos é maior pra gente do que aquilo que a realidade escultura
não se ama algo porque este algo existe
se ama porque ele é a tradução de uma falta
e talvez como tradução da falta
deva continuar a faltar também no mundo 
para que o caminhar continue

a minha felicidade tornou-se modesta
fugiu do grande amor
e pulou num copo d'água
na necessidade cotidiana
na fome, num café, num pão com manteiga

o ápice... o instante.
a tela que pisca vermelha de aviso de uma grande boa nova
é sempre "não é!"

o contraste desta espera pelo bom
constrói o horrível agora
a busca cotidiana pelo ideal
e o eterno encontro com as coisas que não o são

aceitá-las? ficar sozinho? fazer a curva ou retirá-las do caminho?


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