domingo, 13 de maio de 2018

CLARISSA

admito que não sou romântico
procuro uma mulher que abra o portão pra uma infância
procuro-a por sua família
pela varanda de sua casa
antes de vê-la 
amo-a pelas histórias que prevejo na sacada 
que vi num subúrbio
na fachada de uma casa vintage
e que imagino que viverei com ela ali!

amo a voz que ela me lança de uma cozinha

enquanto estou numa cadeira de fitas de nylon gastando um domingo

amo-a
por um vaso de planta que coloca num canto
por uma mania que precisa de seus cuidados
e que me aborrece como ter um cão que me mastiga os chinelos


amo-a tanto
invés dos livros que poderia escrever
quero gastar minhas prosas e poesias com ela
dia-a-dia
postas a secar no seu esquecimento de moça desinteressada por literaturas

eu e minha apatia lado a lado
num mundo acabado 
procuramos alguém que o reinicie a cores

alguma moça que seja necessariamente besta...
e possa me contagiar num olhar 
de sua tolice feliz

que me diga frases novas
inusitadas
desconexas de um mundo acamado

uma menina que em meu corpo todo acreditando nela
me faça um corrupto da razão do país triste que sou e habito
ou que ela de uma vez me destrua:
faça cada célula de minha memória trair
a angústia fiel que me tem acompanhado sem 
que fizéssemos quaisquer juramentos em altares sisudos

fecho os olhos e...
acho que deve ser clarissa!
lá no passado
dentro de um ônibus
me fazendo arder com aqueles
grandes olhos redondos, juvenis e atentos
como se eu fosse mera peça observável...
como se eu não tivesse o juízo
que viria a fazer estes versos um dia

não preciso dela até que a morte nos separe!
mas também não tão pouco como quando chegamos ao terminal.
só até que o desejo morra antes de mim
veja!, não é tanto: todo desejo é suicida
procura se saciar - o que é o próprio fim.

que ela venha nem que seja por pena
de si mesma
de não ter existido 
pra quem era luz

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