quinta-feira, 3 de maio de 2018

PARA LEVAR A CULPA

quase que só víamos nós dois
postos um em convívio com o outro ao longo de anos
para sermos depois como causa um dos problemas do outro

para sermos não-sermos-mais-o-que-éramos
para sermos a paixão que se foi
como do sangue o corpo exangue morto que resta

e como se a paixão e seu fim não se passasse além de uma escolha racional e responsável
como se ela se passasse ante semideuses e não dentro de nós-animais

para a gramática e suas orações só restava nós dois 
enquanto as coisas passavam
mudavam, desapareciam...

para que uma ciência humana e comercial invente "terapias de casal", 
e as religiões promovam coisas tais "encontro de casais"...
só restava nós dois inaptos a "casas de swing". 
porque só resta aos pares 
fecharem portas que os isolem do resto do mundo. pois, se não, como teriam a noção de que são pares e não ímpares?

e todos os dias o medo e a tradição fechavam nosso portão,
nossa porta da cozinha, da sala, nossas janelas 
e éramos um par ali dentro
da casa que se dispunha, que enfeitávamos e cuidávamos cada qual com seu possível.
de maneira que só restava nós dois na dor do lençol amarrotado,
das plantas murchas
das goteiras do teto, das torneiras...

as línguas impõem sujeitos
a pressa evita as circunstâncias e deixam o sujeito simples comprometido autor solitário!

um deus capaz, onde estava? sujeito oculto!
só restava nós dois
para confessar um terceiro.
quem - em vez de aquecer -
veio como um resfriado - sintoma do frio - e também para dividir a religiosa culpa como se o frio fosse de nossa exclusiva responsabilidade e não das estações
que se fizeram em torno nós!

o destino nos separou - éramos tão especiais - como mais um comum
entre infindos acidentes
que infindos são se deus e o diabo não estão presentes.


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