sexta-feira, 6 de julho de 2018

AUTORRETRATO

De repente me pego rascunhando poemas, desenhando carantonhas em tentativas de autorretratos que me façam belo. Como alguém fazendo selfs buscando o ângulo favorável! Mas, Deus!, não são folhas em branco! Não posso amassar e jogar fora! Não posso excluir como virtuais publicações! São gente! São mulheres em que me imprimo a qualquer modo experimental.  Não me sei, então me invento, me aceito no papel que resta! Pinto-me generoso e para que possam prestar, faço o papel de quem não presta? Será isto? Ah! Na ausência de Deus, peço perdão em meu quarto às manhãs seguintes.

Como é vago e distribuído, como é equilibrado meu amar e meu odiar! Tão equilibrado e distribuído, que caio cotidianamente em apatia. Como me trai a minha imaginação! Gosto é da humanidade e de qualquer pessoa. Sou como quem não tem um cão em casa e afaga todos que estão nas ruas... Sou como quem devolve - com o peso a mais de quem racionaliza -, a estes cães sem dono, seus olhares de desamparo. Sou como alguém que perdeu o entusiasmo pela vida, e observa do seu oco o preenchimento dos outros, e tenta lambê-los, tenta mergulhar neles, talvez roubá-los, talvez trazê-los juntos para o vazio...

Oro a mim mesmo, não tenho Deus: "Preciso aceitar minha feiura, minha solidão, talvez esta morte que me aconteceu há muito tempo..." As manhãs, sóbrias, me apuram este vazio que tenta acreditar artificialmente no outro. Como se eu não fosse o único mundo que me resta! Pobre miserável! Não porque "Pobre e miserável!", mas porque um dia acreditou que havia outro a odiar e a amar, mas todos eram eu mesmo, meu ódio e meu amor eram enganos possíveis num tempo ido!

"Sou incapaz de brigar... " Esta incapacidade pode ser terrível. Pode ser a mesma que me faz "incapaz de amar". Mas... Que fazer? Não encontro motivos! Todos meus inimigos são vapores, fantasmas longínquos, como meus amores! Algo que não posso ofender porque não são pessoas inteiras... São ideias habitantes ou hóspedes nelas. Se as ofendo cometo um erro muito crasso comigo, perante a minha filosofia! E as pessoas? Não tenho tempo para avaliá-las com rigor! Preciso de preconceitos! Não tenho tempo para fazer ciência que entenda o alheio! Então fica comigo esta inimizade com ideias, com tradições, este amor por sentimentos, esta caçada por sensações que sejam talvez de minha infância, antes da morte de meu pai... Sei lá! Estas coisas vaporosas, estas faltas, estas raivas, estas fomes indefinidas, abstratas, não sei vesti-las em pessoas e odiar umas e amar outras como fazem os enganados, os encantados...Sou desencantado! Sou apenas alguém que sobrevive a si mesmo graças a uma covardia! Olho para o homem, para mim também, como para animais a serem salvos pelo engano... Animais que têm em sua ilusão o amor possível! O engano é o único remédio para a dor de ter cabeça! Tenho piedade por todos nós: assassinos e assassinados. Vítimas de nossas leituras inevitáveis! Sou vítima de não ter parâmetro de escolha, de não ter método, de não ter paixão suficiente nem mesmo para sair da vida. Sempre que continuo, devo desculpas.

Vivo um mundo sem guerra e sem paixões, portanto, sem extravasar, o que possivelmente acumula ressentimentos que vão acabar me explodindo... Almejo um mundo nirvana que seja talvez a morte! Uma vontade do nada? 

Amanhece, tento conversar com alguém sinceramente, não há entendimento... Só a imagem da solidão monstruosa me comendo mais um dia... à luz do dia! Exponho isto! Que acontece? Recebo consolos e advertências, como se eu fosse um menino... Como se eu fosse evitável, corrigível! Ora, um menino tem por sorte e infância a falta de autoconhecimento! Torço que me reste muito que me conhecer como a um menino! Ó! Como invejo o menino que fui, tinha ele ainda o gosto de experimentar-se por aí, de desconhecer-se e inventar-se herói. Se tento me inventar herói, acordo ridículo grisalho!  Advertência e consolos, como se enxergar isto tudo que aqui digo de mim mesmo não fosse duro o suficiente já, me revelasse maduro o suficiente já para ser colhido da vida como fruta do pé! "Aliás, já não estou no chão? Já não passou minha estação? Já não apodreço e me comem o que resta doce?  Começo, por enxergar o meu feio, a me resolver, ou a morrer, ou a ser um problema? É preciso acertar o poema, porque a vida é uma só... É mesmo uma só? É preciso acertar?" Ah, dúvidas, meu mar! Estou cansado de nadar! E se enxergo isto tudo e não mudo... É que sou rascunho da vida. Outro depois de mim virá na forma de uma poesia melhor? 

Ah me perdoem, leitores possíveis! Se fico quieto, percebo que o mundo me esquece neste quarto! Se grito o desespero desta percepção, torno-me inoportuno! Não resta nada se não engolir a mim mesmo.  Grito intracraniano: "Chega de se matar nos outros!"

Abomino religião, mas invejo a tranquilidade que têm para amar e odiar, os religiosos! Quanto a mim? Aconselho-me também, mas não adianta: "Feche-se, cale-se, mate-se, talvez ainda haja tempo de ser algo mínimo, uma pequena saudade em alguém que o deixou sozinho. Numa tarde nublada, num domingo... Quem sabe! Algo pequeno, mas melhor que eu, uma pérola de mim, uma pequena saudade dentro da moça de um sonho. Feche-se!






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