quinta-feira, 1 de junho de 2023

O MONUMENTO

 Não sei muito bem:

cheguei a uma idade que me falhe a memória...
Mas se tivesse que eleger o melhor dia de minha vida...
Um único momento breve o clareia entre dias tantos  desaparecidos:
quando tive sua mão na minha,
numa rua de Minas.

Antes do que havia sonhos;
depois do que, esta saudade de sentir.
Padeço a falta de uma ingenuidade promotora de entusiasmos tais!

Não fique lisonjeada!
Sua mão não é mais aquela,
direita que se deu com receio...
e deixaria de ser mesmo se estivéssemos ainda naquele passeio.

Acho engraçado flagrar um destro
compondo o dia mais bonito de sua vida com a mão esquerda!

Não são as mesmas mãos
até porque do que fomos só resta sermos velório.
Ambos morreram de uma maturidade austera que a vida entrega aos que persistem além da juventude:
os sonhos que nos atravessam
sucumbem a um claro deserto onde o vazio revela o horizonte.

"Qual terá sido o melhor dia de minha vida?"
Tudo não passa de uma eleição inevitável
pelo capricho de me ter vindo numa manhã larga a corriqueira pergunta.
No calendário não sei o ano!
No queixo a mão morta escora
a falta de qual sou um monumento.