segunda-feira, 29 de junho de 2026

 Os 50 anos chegaram nele como o que arrepia. Mas ele não se arrepiava. Quem tivesse noção — de fora, como eu, seu amigo — se arrepiaria.

Sempre colhi uma semelhança em Fábio. Uma semelhança que acalentou minha adolescência — fase prepotente, entusiasmada porque ingênua.

Fiquei pensando nos efeitos colaterais dos pais dele. Tal qual os remédios.

Os pais de Fábio eram os pais que um adolescente gostaria de ter: você não estava sozinho para se sustentar, mas estava sozinho para ser o que quisesse de si mesmo.

Como chamar isso?

Quando jovem, eu dizia:

— Liberdade!

— Seus pais são maneiros!

Hoje eu diria que era uma espécie de construtivismo sem tijolo.

segunda-feira, 8 de junho de 2026

 Eu não venho de mim.

E de onde vem o lugar de onde eu viria?
Que nome deram, até onde ele vai, quando que a gente sai daqui?
O que a vida encontrou aqui além da distância de lá?
Como as palavras me escapam!
O que seria fugir? Alguma dor que apressa?
As coisas não são sequer de si mesmas.
Não tenho a menor propriedade de dizer
Poesia também é lugar de se viver livre da civilidade.
Escrever também é ferramenta de suportar.
Que tempo me tem? Pra que fim?
Não te convenho, Tempo!
Pra que lugar iria?
Nós não podemos escapar das horas.
O que atrai traça uma reta entre pernas de ir
O que afasta é pai do deserto
E o que atrai ramifica
Ainda que se nomeiem e cincunscrevam municípios
Estamos sempre incompletos
Sujeitos-objetos
A línguagem acabou por nos mostrar mutilados


O tempo é um jeito de ir sem chegar. 

quarta-feira, 27 de maio de 2026

O AFETO CONJUGAL POSSÍVEL

 Aprendemos o amor romântico: a esperar e a sentir em sua forma.

Depois que nos desfazemos deste formato, não há mais nada a aprender do amor conjugal. Precisamos nutrir por conveniências econômicas, concretas, afetivas o relacionamento possível à vida que nos resta. E então estranhamos nosso caso afetivo pelo contraste do que foi construído em nós por longo tempo - desde a ingênua infância - com o que é o possível na maturidade - Claro!, além de ficar só! Eis quando não há mais nada a aprender sobre amor, ele fora inventado (cultural e não natural). Agora só podemos ceder pra construir segurança e algum progresso com o outro. Em geral, o tesão declina ao longo do caminho,  mas o fato é que não há nada mais a aprender sobre "amor": o que fora inventado quebrou; o que resta é uma necessidade de chamar de "amor" aquela relação que parece vai durar por toda nossa vida - para o bem e para o mal. Isto porque temos vergonha de nos dar ou de nos flagramos entregues a algo que não tenha a grandiosa denominação: "amor". Conclusão: é que não precisamos tanto da nobreza quanto de enganarmo-nos quanto alguma nossa infâmia. Todavia, o alento: a infâmia é apenas uma sensação ocasionada pela queda do "sonho delirante do amor romântico" no chão do afeto-conjugal cotidiano possível - chamemo-lo como for preciso para nos sentirmos dignos!