segunda-feira, 8 de junho de 2026

 Eu não venho de mim.

E de onde vem o lugar de onde eu viria?
Que nome deram, até onde ele vai, quando que a gente sai daqui?
O que a vida encontrou aqui além da distância de lá?
Como as palavras me escapam!
O que seria fugir? Alguma dor que apressa?
As coisas não são sequer de si mesmas.
Não tenho a menor propriedade de dizer
Poesia também é lugar de se viver livre da civilidade.
Escrever também é ferramenta de suportar.
Que tempo me tem? Pra que fim?
Não te convenho, Tempo!
Pra que lugar iria?
Nós não podemos escapar das horas.
O que atrai traça uma reta entre pernas de ir
O que afasta é pai do deserto
E o que atrai ramifica
Ainda que se nomeiem e cincunscrevam municípios
Estamos sempre incompletos
Sujeitos-objetos
A línguagem acabou por nos mostrar mutilados


O tempo é um jeito de ir sem chegar. 

quarta-feira, 27 de maio de 2026

O AFETO CONJUGAL POSSÍVEL

 Aprendemos o amor romântico: a esperar e a sentir em sua forma.

Depois que nos desfazemos deste formato, não há mais nada a aprender do amor conjugal. Precisamos nutrir por conveniências econômicas, concretas, afetivas o relacionamento possível à vida que nos resta. E então estranhamos nosso caso afetivo pelo contraste do que foi construído em nós por longo tempo - desde a ingênua infância - com o que é o possível na maturidade - Claro!, além de ficar só! Eis quando não há mais nada a aprender sobre amor, ele fora inventado (cultural e não natural). Agora só podemos ceder pra construir segurança e algum progresso com o outro. Em geral, o tesão declina ao longo do caminho,  mas o fato é que não há nada mais a aprender sobre "amor": o que fora inventado quebrou; o que resta é uma necessidade de chamar de "amor" aquela relação que parece vai durar por toda nossa vida - para o bem e para o mal. Isto porque temos vergonha de nos dar ou de nos flagramos entregues a algo que não tenha a grandiosa denominação: "amor". Conclusão: é que não precisamos tanto da nobreza quanto de enganarmo-nos quanto alguma nossa infâmia. Todavia, o alento: a infâmia é apenas uma sensação ocasionada pela queda do "sonho delirante do amor romântico" no chão do afeto-conjugal cotidiano possível - chamemo-lo como for preciso para nos sentirmos dignos!

segunda-feira, 11 de maio de 2026

Pire na pólis!

 

É só onde vivo que acho gosto e desgosto.
Agora... não estou certo se pontes acertaram em dar aqui!
A cidade tem beleza e feiura, mas...
...sem contraste não há cores.
Riqueza e miséria...
Há um rio limpo na minha crença,
envolve meus mergulhos...
Daqui, mirante, me alívio de lugares passados.
há almas afogadas em crendices como qualquer lugar do mundo...
Aqui, neste interior, sou maior do que já fui.
1 em 25 mil é 40 vezes melhor do que ser um em um milhão!
E ainda desconfio que a matemática não consegue calcular toda melhoria.
Hoje moro mais perto de mim.
Me acho e me perco aqui nos mais diferentes estados.
Demando diversidades...
...só dói onde permaneço mais do que preciso.
Seja a cama de um quarto escuro ou a areia de uma praia


sábado, 2 de maio de 2026

 


Os bilionários querem cada vez mais
porque a vida não tem sentido
Procuram no fundo do oceano e em naves espaciais...

Os miseráveis tem necessidades tais
que outra falta perde a vez.

A classe média tem camarim pra produzir-se assim indignada?
Sente pena...
...de si e dos demais!
O supérfluo lhes é necessário,
ambicionam a fartura ainda não usufruída...
guiando suas vidas por vias comerciais!

Só  aceitarão que não há sentido
quando não o encontrarem em todos os locais!
falta o fundo do oceano e em Marte a olhos nus... Nada os satisfaz!
Das pontes bungee jump, para-quedas...
Destacam-se veleiros de infindos cais...
Adrenalina, endorfina, cocaína... 
entorpecentes mais quando lhes falta a fé para que Deus faça esquecer que são mortais!

Passaria a vida a olhar por uma janela...
Se o sol não dispusesse nitida a inutilidade de tudo me abrangendo em tanto faz
Sou dos ansiosos que enganem pretender chegar a algum lugar com sua inquietude que é não saber desistir de escapar. Mas como é possível que eu me perca, se pra mim o mundo é cerca?

Diferentes, há mais sobreviventes:
que se devotam a conspirações, romantismos, mirabolâncias transcendentais...  Para não se afogarem na realidade, para não perderem o gás, inflam seus balões com ar bem-quente ou
se agarram em algum delírio que flutua na enchente.
É por miragens que apesar e sem precisar  a vida continua pra gente.






quarta-feira, 29 de abril de 2026

 Um pavão 

Pode haver a esperar qualquer olhar

Mas tudo que tem e que é conquistar 

É a própria consideração 

terça-feira, 28 de abril de 2026

Incumbência


não fomos
havia um projeto impreciso
uma teoria
um lugar em que chegar
promulgado por todos
homologado pelos pais
almejamos qualquer coisa num menu apresentado
depois nos enfadou o possível

e agora sentimos falta como se tivéssemos conseguido
não fomos nada
não sabemos o que fomos
o tempo passou
não há tempo suficiente a frente
para irmos a lugar algum
sentimos falta da crença que nos entusiasmava
o tempo passou por nós apenas natural como um vento
para que não tinha velas em nossa ambição
e os remos caíram no mar
e os músculos não de todo cansados
deflagram a ausência de motivos
o fim é quase palpável e condescendemos com a mesma cabeça
que percebeu o tempo indiferente que desabrochou
a flor
jogou suas pétalas no chão
e nos incumbiu
saber o florescer e a extinção
de tudo

quinta-feira, 16 de abril de 2026

 Com "o que será?" não quero gastar minha cabeça.

Sou mais de me virar com que acontece do que de me virar pra que aconteça.

Mas uma coisa, outra não anula
Isto de isto ou aquilo
É coisa de quem não regula
A vida é  aquilo com isto
de cada seu "quanto"
no lombo da mula

quinta-feira, 19 de março de 2026

TEATRO SEM ATOR

Esse teatro em e de que vivemos,

Títeres do acaso sem mãos,

A ejacular nosso propósito.

Pobres bestas que se olham no espelho

e enxergam algo mais.

Falta refletirem no mundo além de na lâmina para que se saibam.

Que se vejam apenas imagem é só uma sugestão para seus delírios de grandeza.

Os loucos fogem do inferno de entender o mundo

pro inferno de não serem entendidos.

Os que não são loucos plenamente se infantilizam com Deus ou qualquer outro entorpecente.

É preciso agradar, temos medo e não poder...

É um preciso agradar pra sobreviver. 

E neste fazer não importa o que é real ou falsidade. 

Quem não pode ser temido, precisa 

ser amado.