terça-feira, 28 de fevereiro de 2023

Estilhaços nostálgicos

Fragmentos de afetos antigos, da infância e juventude quebrada, chocam-se contra minha alma, chegam no veículo de uma imagem, um cheiro, uma melodia... Não são lembranças íntegras que se localizam, não se trata da falta específica de alguém, nem de uma época como um todo. São cacos de peças irreconhecíveis, irreconstruíveis... Parecem saudade de sensações! Como sei que se tratam de afetos antigos? Há saudade nelas. Elas não me fazem querer o presente e nem o futuro. Quando esses fragmentos me atingem, eu tento me concentrar para montar a imagem inteira, a peça inteira... e reconhecer de que é exatamente a saudade que me causam. Mas em geral não consigo encontrar e nem continuar sentindo aquele gosto bom de vida. Isto tem acontecido demais comigo. Suponho que um vazio presente é como uma tela em branco para que mínimas cores se projetem numa pintura nunca realista. É como ter chupado uma laranja e depois lembrar dela numa textura na língua, ou seja, por parte muito pequena do que ela me propiciou... Será que aquilo que lembro inteiriço na saudade: parentes que se foram, brincadeiras, amigos distantes... - já se desgastou enquanto sentimento, já não me provoca, e então sinto falta não dos objetos inteiros, mas de sensações que estes me causavam? Talvez eu tenha descoberto que a saudade não se faz de figuras inteiras, mas de pedaços. Então não consigo mais ilustrá-las como saudades de um parente falecido. Por exemplo, é possível que eu sinto saudade de uma emoção causada durante uma brincadeira que tive com meu tio, e até então eu nomeava de "saudades de meu tio". Pois assim seria mais fácil expressá-la ante os demais e ante mim mesmo. Nesta hipótese, eu precisava da imagem do meu tio para transformar tal sentimento em algo inteligível, me propiciando uma sensação de compreensão, então parecia saciar determinadas ansiedades que surgem associadas a tais sensações, e também me possibilitaria comunicar tal sentimento com mais facilidade, me entregando uma sensação de comunidade com outras pessoas que manifestassem assim também suas nostalgias. Penso também que compreendendo de uma tal maneira uma determinada coisa, se perde por ela algumas esperanças e se nutre outras de maneira conveniente. 

É como se eu tivesse a saudade de sentir de uma tal forma o mundo, e não a saudade de um mundo. Não tenho então a ilusão de poder reviver, mesmo porque se eu pudesse reviver aquilo que se passou comigo, está vivência não tiraria de mim a mesma apreciação. Da pra entender? Em suma, não é falta da coisa, mas do que ela parcialmente me causou de sensação! 

Tenho sentido isto muito recorrentemente. Por exemplo, hoje vi a imagem de um cara todo enfaixado na internet e foi como um caco de algo... De quando eu ficava doente?... De alguma ocasião quando me machuquei ou alguem se machucou? Que sensação seria essa resgatada a partir da imagem? Uma esperança de cura? A atenção que eu recebia quando adoecido? Que objeto me causou tal sensação? Ainda posso despertá-la? Não devo tentar sentir algo assim novamente pois não seria possível? Morreu algum dos ingredientes necessários - inocência - para que eu sentisse de tal maneira? 

Sinto falta da vontade que eu tinha da rua, dos amigos, do outro, do entusiasmo com terminar o almoço e retomar uma brincadeira, o prazer de começar a sonhar com coisas antes de dormir, num mundo de faz de conta... Bem, isto tem acontecido, e eu sempre tento mergulhar mais e tentar reconstruir o vivido pra ver se é algo que posso reencontrar na vida, ou pra me entender melhor... Mas é como num sonho em que as coisas que você quer lhe escapam e você desperta antes de conseguir alcançá-las.

A verdade é o fim da liberdade da interpretação.

sábado, 21 de janeiro de 2023

Vivo melhor do jeito que vivo menos. Quando paro pra agarrar a vida, calcular, verificar... sofro vendo que ela passou. E é este tempo debruçado sobre as perdas que dura, mas então quando gostaria que passasse... E o que passa alegre, por não ter olhado pra si mesmo, sem  ter sido visto, parece mal aproveitado. 





segunda-feira, 16 de janeiro de 2023

um ceticismo para o inédito

As coisas tão mais substanciais porque em serem vagas estavam mais preenchidas por sonhos do que pelo vazio da realidade. Um domingo e seu tempo eram qualquer coisa de fantástico... A presença de meu pai vendo tv à noite, cada hora estava repleta de significância. O som pela casa, entre as paredes, as falas atravessadas da tv e da família. Os amparos tantos: Pais sob o mesmo teto e avós na casa em frente. Amigos, primos que viriam nas férias, brinquedos e brincadeiras... Tanta alegria disponível, que hoje nem sei como vivo ainda neste deserto. Numa espécie de insistência burra e covarde. O coração nem precisava colher esperanças. E não havia grande espera por nada. Nenhuma ânsia. E o que  pior se anunciasse já chegava esquecido.

A culpa agora não está no que não é, mas no que por saber na cabeça não posso sentir. Antigamente cada rua reiniciava o sentido da vida. Cada casa e família que eu conhecia. A voz e o jeito da tia de um amigo... Subir um elevador... havia esperança em se chegar a um novo bairro, em andar por aí...Agora tudo pertence a um compêndio do vivido... Não há entusiasmo para quase nada, sentamos e comemos, levamos ao estômago a satisfação que não damos à vida. Apenas uma fome que preguiçoso me leva à padaria mais próxima. Os dias mal começam e estão mortos de cansados como ter vindo a um evento desgostoso e ficar porque já não há a casa pra onde eu voltaria.

A vaidade de agora me culpa por antigas feiuras despropositadas.

Esta sua pretensão de credora se não é também feia me é ao menos bem inconveniente.