sexta-feira, 30 de maio de 2014

Ela vinha logo atrás de mim na fila da farmácia. Ela vinha sem preferencial, com sua bengala. Trêmula. A pele branquinha e encarquilhada, completamente, o cabelo branquinho, liso, curto... Trêmula. A atendente olhou para ela: tudo normal! vida que segue! - pensou a atendente. Lembrei de minha avó América. A atendente chamou, deixei a velha passar e cheguei então no pescoço dela, deixando correr a língua em sua nuca, oscilando nas rugas a língua, sussurrei vaporoso: gostosa! - Ela até parou de tremer.

Então pensei em velhas em beiras de camas, tetas murchas, netos que falam na sala, sua família, seus filhos, suas irmãs beijando meu rosto... As tetas despencadas como bexigas vazias no quarto. A porta azul claro fechada. O chão de tacos. Os meninos trepidando na sala. O videogame ligado. A cama tremendo. A porta azul fechada claro. A velha e eu no escuro.
Adoro cartazes! Nos manifestos sempre levanto a cabeça. “Filma nós!” –pequenas cartolinas; “Legalize já!” – hidrocor, me lembra infância... Lembram gente jovem, cartazes. Cartazes são pueris! Sinto-me bem com essa contribuição de gramas num mundo tão grave. Meninas e meninos. Meninas primeiro! Lindas. Ostentam cartazes muito diferentes. Umas são vadias. Outras, muito decentes. Mas eu gosto mesmo de cartazes... lembram a "revolta da cantina" na escola de minha infância: “Bolinho estragado jamais será comprado!” – e... como a gente persiste com frases bobas na cabeça! É por isso que não sabe nada que importe, a gente. A menina linda, loira, os cabelos contra o vento, escrevendo em cartolinas sobre pedras portuguesas cartazes que vão mudar o mundo. Juntaram o dinheiro da merenda e compraram cartolinas. A menina de apenas 17 anos. Quanto? Quanto ela e seu cartaz não são melhores que eu no fim de um livro?

quinta-feira, 29 de maio de 2014

ah, basicamente eles viviam pra provocar sensações. vendiam a imagem mesmo! não... sem dó! sério! vendiam a imagem deles. real. porque um ator exigiria um personagem, mas eles não. eles não se escondiam atrás de nada! eles apareciam, faziam um papel. mas se passavam por eles mesmos. tudo que eles falavam era como fossem eles mesmos. então, dependendo de como ele atuava... por exemplo, hoje numa praia... se ele desse de gay, você diria: "está ali um gay, um cara libertário, um cara de tanguinha..." mas a mesma pessoa, visse ele num palanque - e eram sempre extremos que ele ocupava -, acharia que ele era hitler. era assim... era uma profissão estranha mesmo! era feita para especular vagas para personalidades de sucesso. que personalidade era mais popular? que personagem seria melhor para as celebridades? que causas defender? que ideia ter sobre isso ou aquilo? - eram suas questões! e o contrato rezava que eles não podiam falar que eram personagens, nem comunicar a sua profissão em público. mas eles eram tipos assim mesmo. hoje eles eram brancos, amanhã eles eram negros!