sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

um infeliz bebe até se anular, anular a consciência que sofre. até esquecer de si. mas depois ele dorme e acorda ainda mais sozinho, percebendo que nem ele mesmo se quer.

PREVARICAÇÃO

solidão total no sentimento que habito.
não há ninguém para quem eu represente felicidade.
"desamparo" é a palavra.
sou só eu mesmo:
sinto o ar em volta do meu corpo como um mar de indiferença.
nada além de mim é meu fracasso e meu sucesso.

"quero trancar este corpo numa caixa menor que esta casa"
- penso nisto e há um sorriso esquelético maquiavélico sob a carne.
não quero levar por aí estes versos mais!
quero colocar uma fechadura em meu cérebro
e entregar a chave para a morte.

nada deixo para trás:
tudo se livra de mim.
quero eu mesmo me livrar e
quero eu mesmo me deixar para trás.
coisa que para os outros é sempre mais fácil!
quero parar de me salvar
me matando em versos.


vamos, mãos, tomem por fim outra medida!
dedos tolos: apertam estas letras todas...
bastava um gatilho:
estouraria como um champanhe;
um forte poema vermelho e derradeiro no chão da vida!
como qualquer coisa, claro! fadado ao esquecimento.
mas ainda mais lembrada que esta existência.


"Ah! Cuida da sua saúde, Filho!"
- diz-me o fantasma de juízo, quiçá o espírito de meu pai...
ou uma mixagem de vozes antigas e padrinhas
quando, menino, eu colhia amor dos colos
que me recolhiam do chão frio.

ah, meu ido velho,
para ninguém minha saúde representa!
consolam-me por vício de vigiados por cristo!
ajudam-me pela beleza de levarem uma cruz!

se tenho sonhos bons?
só os impossíveis!
o que me faz acordar de ressaca por ter sonhado.
durmo e volto a ser o "pituco" que o senhor jogava para o alto
na folga dominical do seu comércio.
mas agora domingo é igual a qualquer dia
não há folga da indiferença.

que deve a saúde representar para este lúcido solitário, meu pai,
que sofre e sabe a solidão por lucidez?
e só na ilusão encontra refúgio:
não vê que não há conversas melhores que versos com mortos?
que fazer na calçada estreita da vida?
vale mais me atirar de vez na amplitude infinda da alameda que nunca se atravessa!
porque... saúde mesmo? é inteligência que engendra o fim antes que se definhe!
minha saúde a ninguém interessa! mais me seduz o fim que estar forte para nada.
o fim que sua esposa tem cantado ao meu lado por todos estes anos
em pequenos suspiros;
o cansaço, o desejo do fim como uma leve cantiga que ela introduz,
qual me dispara angústias no peito.
a cada um desses dias de sua ausência, amiúde ela tem entoado.
são suspiros! arremedos de estertores que me convencem
a sair da cama e me tiram o sono, a paz!

por que me teve,  meu velho? nasci tão no fim!
sua esposa aqui aos poucos vai gemendo
e murchando as flores que me restam
como sobre um sepulcro esquecidas.

mas nem tudo é perda!
o primogênito vinga como um cavalo!
pituco até agora  aguenta os coices da vida!
pausa! ouça: "ui! ui! ui!" e  respiração ofegante intermitente.
calma, meu velho! é só mais um dia começando...
mais um dia desses quase 42 anos de amarras sentimentais,
mais um dia em que sua esposa acorda e me coloca em débito com a vida!
mais um dia que faz parte da poesia.

e o amor? ah, se há moças que querem seu filho?!
apenas como consumistas:
tiram fotos comigo como se usassem um vestido novo
e depois difundem em círculos femininos misteriosos
aquilo que sou despido do artista.
procedimento que amarela os sorrisos que recebo por aí!
por já não os saber francos ou o que teriam de superioridade para comigo!
ah, são molecas em que tropeço, meu velho!
já que mulheres tropeçam em mim.


nenhuma viva alma irmã que me possa acompanhar na saúde
as pessoas mais arraigadas em minha vida
caminham para o fim.
que farei aqui sem elas?

em vez de Deus, tenho apenas dedos!
ore comigo, meu velho!
"Dedos todo poderosos, santifiquem-se:
acertem a última tecla!

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

A ÚNICA MANEIRA

pois é, meu amor,
falamos a angústia do mundo que há dentro de nós
e temos a sensação - breve que seja! -
não de que a curamos,
mas de que toda ela cabe em palavras,
coube em nós ainda que apertada,
pontiaguda e áspera
e que - falando desvairadamente - a expelimos!

então que somos maiores que o mal que passa dentro de nós.
sinto que sinto coragem porque estou contigo,
porque você vem até aqui me ver,
e porque escrevo estas linhas pensando 
que tenho a linha na mão
e seu olhar é a pipa que faz dentro de mim esta infância
correndo por aqui, sobre estas letras...
faço versos como pavimentos para as sensações
para que a sua emoção avance fácil e me atinja
e me banhe e me lave e me reinicie vigoroso.

falamos com os corpos colados
e colocamos para fora as dores antes do gozo
no fim da noite - conectados até depois da saciedade e
exaustos do dia que se foi sem que nos déssemos conta -
gozamos no fim,
como quem sobre as dificuldades estabelece um playground

é assim que suportamos ter consciência e memória.
só assim podemos continuar.
somos um para o outro a única maneira de um mundo indiferente
nos dar colo.


quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

DESAMPARO

Cheguei em Goiânia em primeiro de julho de 2009, esta data é uma entre poucas lembranças nítidas. Com isto posso ser honesto e seguro: primeiro de julho de 2009. Bela data pra se recomeçar! Não? Lembro que a aeromoça disse: 

- Moço, nunca mais faça isto! Você nos deu um grande susto! - me sacudindo, eu sozinho na nave. 

Não sei o que respondi ou se respondi. "Despertei!" Estava drogado demais. Rivotril demais. Três dias ou mais engolindo comprimidos ao bel desprazer? Angústia! Infelicidade! Acho que é assim que deve se chamar. Ah, lembro também da  dona da escola, entrando no quarto, na casa de minha irmã, me entregando o dinheiro... Acho até que as notas estavam com duas dobras. Que ela terá dito mais? Colocou o dinheiro em minhas mãos ou eu tinha um bolso na camisa? Pouco importa! Eu numa cadeira, em frente ao computador... Possivelmente falando um monte para ausentes presentes. Um tanto de besteiras, pois nós,  semimortos, não respeitamos nada. Somos perigosíssimos para o que nos resta de vida, podemos até não voltar para ela. Agora, se alguém me disser com voz incisiva que é tudo coisa da minha cabeça, que isto tudo foi sonho, que a dona da escola nunca foi lá... Posso acreditar! Ah, meus amigos, meu hálito é todo de desistência, mas não me falta um parafuso, talvez falte uma bala aqui ó! Não me venham que estou desistente porque pirei. Vocês é que continuam por piração, piração é saúde, delírio, ignorância, medo... Fé em Deus! Lembro da dona da escola dizendo para eu não me preocupar, acho que com relação às provas de recuperação que eu não fui ou não iria aplicar. Seja como for, ela me absolvia, a dona da escola onde estudei a infância até a oitava série, e naquele agora eu fazia um semestre de professor de Língua Portuguesa. Fosse a sensação de um fiel após pagar a penitência. Não! Não tinha mais condição de ser professor. Deu pani no sistema. Mal tinha condições de existir! E agora escrevo para não beber, preciso parar de beber, e vou colocar... tentar colocar letras no tempo que tenho dado às garrafas para evitar novo curto circuito. Só  por isto! Não há muita esperança para matar em mim: sou brasileiro, mas tenho consciência. Escrever foi o que mais consegui fazer em minha vida, digo, sem parar... Não me levo a sério. Quem levarei? Acabo magoando as pessoas ao redor. Venham letras cansadas, venham! Depois das letras, o que tive de mais constante foi o cigarro, a bebida... Ah, alguém ganha das letras. Por força do destino sou mais filho que escritor. Minha mãe eu tive mais tempo que letras. E o cigarro, anh? Vou fazendo agora um ano sem cigarro. Não! Não preciso de palmas ordinárias! Enfim, a dona da escola! O que será que ela sabia? Sabia que eu estava morto? Vindo me pagar os atrasados e acatando minha ausência no período de recuperação. Sejamos mais precisos e honestos: eu estava meio morto. Lembro também que minha irmã comprou uns livros. E dizia: "Dotoéviki?" pelo telefone. Eu corrigia "Não, Dostoiévski! Diga ao rapaz: Fiódor"  - O vendedor de livros não sabia quem era Dostoiévski. Bem, ele devia saber quem era Augusto Cury! Minha irmã me comprou umas roupas também, eu estava junto, andando com ela no shopping, fazia as atendentes rirem com minha semiconsciência.... Não sei que eu falava, se era simpático ou o quê... Bem, corte com tarja preta: Consegui entrar no avião. E aqui estou, mais de oito anos depois. Agora que começa a complicação. O que recheia este período? O que traz minha cabeça de lá até aqui nesta cadeira? O que ela guarda? Sinceramente, não tenho muito ânimo, mas entre escrever e procurar psicanalistas que leram Augusto, eu prefiro escrever novamente. Assim vou levando enquanto não morro ou me mato. Vamos tentar? Vamos sim, Rodrigo! Vamos sim! Que fazer? Pra animar vamos deixá-los participar um pouco! Vamos deixá-los julgar um pouco! Vamos deixá-los se distraírem com a nossa tragicomédia? Um pouco! Só um pouco!



terça-feira, 2 de janeiro de 2018

NA BOCA DA MORTE

em cada mulher que virou retrato
em cada desgosto que narra  a vida sem entusiasmo
envelheço

não se trata da Terra em torno do Sol
me assando como um frango que cães intergaláticos namoram


estou cada vez mais dourado
e dou água na boca
da morte!



POESIA?

o que ela jamais saberá é o quanto de mundo morre em seus olhos
dessas ilusões que a gente prende no peito
e que foram nosso sustento
foram tudo!

quanto se desprendeu?
quanto já não mereço para o público
a que se anunciou nosso divórcio e a que se fez conveniente
acrescentando razões que façam justiça no que era minha perda?
pessoas que não apoiariam se soubessem a cru o que era esta derrota!


quantos não me fizeram culpado
no que foi um curso comum rumo ao fim?

entre amigos que ainda riem
e sobretudo no homem que goza dentro dela
e entre parentes rendidos que por então se conformam
o que ela jamais saberá:
é o que sou eu;
e o que em mim é perda.
exclusivamente minha,
somente minha!

e nestas letras
que ela impassível lê e atina - por sorte de absolvição - que são apenas versos mortos...
e somam ao inconveniente qual nas concretudes ando calando em abraçá-la como se o mundo fosse ainda controlável como quando éramos...
e como se tudo estivesse em curso dentro e fora de mim sem grandes perdas
nestas letras ela me despeja para fora!
ora! estas inconvenientes
despeja como inquilinas
negligentes...
para fora de seu juízo!

atina?
se atina...
se alivia imediatamente!
porque estas palavras são necessariamente
a grafia de não oralizar com os meus nos seus olhos
em timbre real (dolorido) o que é isto!

são elas o resultado de um comportamento de um homem para quem ela já não
precisa dizer "adeus"
aliás,
"adeus" não lhe cobrei:
caímos assim
como caixão que desce
no fim, num chão mais baixo, que depois se pise em cima, e  não se veja, que se esqueça!

e esta lápide inconveniente?
jogam se rosas por cima!
ritos são cumpridos,
se tanto!
mas não há conversa possível com que está morto,
com que é "que" e já não "quem"!

se ela lembrasse o nosso amor como o que em mim era:
aperfeiçoamento de tudo imaginado,
de todas paixões que tive, aperfeiçoado!
fonte de tantas poesias até depois do fim!
se ela soubesse nosso amor!
e também lembrasse o quanto fomos cúmplices...
poderia ser feliz agora ou acreditar num recomeço daquilo que - sabe - estará perdido?


ainda amá-la quer dizer:
torço que ela
cante com o coro de amigos
o que é esquecer-me!


quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

ela tem uma beleza do tempo:
rítmica.

a beleza está em como ela começa uma palavra
com mais força
em staccato, em legato...

há beleza de pausas:
como um desejo interrompendo o outro
interrompe de repente um parágrafo de sua vontade.

há beleza de inflexão teatral:
como um desassossego doma sua palavra
ou uma infância dentro dela a faz redundar pedidos
em tons progressivos de sua carência, de sua nostalgia...
até que se forme uma grande súplica irrecusável!

suas expressões se formam como ondas num mar tépido
- submerso, sinto as sensações se recolherem para o mar aberto
retraindo-se dentro dela
para onde me atrai a correnteza...
e depois começam a se desprender suas inquietações
tornam-se visíveis adquirindo signos

vejo esses desejos se erguerem em pequenas ondas
porém consecutivas, incansáveis, tenazes...
até quando arrebentam em nós o seu timbre de menina
se desmanchando em choro ou riso...
como a espuma que se faz na arrebentação
em que quase me afogo e engasgo
e depois flutuo