sábado, 16 de setembro de 2017

a pérola

que caminhos insólitos até a cama. a louca... eu fui descobrindo aos poucos sua loucura. muitos indícios desculpei na "infância", no ambiente que tantas insanidades ensejavam: aquele novo mundo em que ninguém arriscava mais que um pedaço da alma, se tanto! 

desculpava-lhe os primeiros indícios também no desentendimento das falas remotas, picotadas no canal estreito das tecnologias em aprimoramento. eram também falas sobrepostas umas as outras em rodas de conversa. desculpava nas drogas também e, depois, quando soube a vida traumática, antes de suspeitar que mentia, considerei que era outra razão atenuante... 

mas o que sabia meu corpo inteiro, contra qualquer razão, é que era preciso continuar com ela. o racional se virasse pra entender a loucura da moça da maneira que fosse possível! porque o desejo imperava. o que ele queria era a imagem daquele corpo, aquela entrega da voz sulista da moça, equalizada pelo tesão do momento, das vaidades, de uma abstinência ocasionada por horas inoportunas ao sexo! a voz gaúcha da moça, a voz litorânea, a voz fazendo o verão possível em plena primavera.
equalizada pelo bem e o mal que há dentro de todos nós, símios morais. a voz entregue... batendo contra meu peito, como o abraço de onda gelada do mar num corpo quente da longa caminhada... a voz entrava e espalhava uma espuma de prazer dentro de mim antes que ela saísse de casa para fazer as unhas. 

as unhas... mais concretas que tudo de delicioso degustado ainda há pouco. o atraso na manicure por conta daquele deleite sem juízo. em breve as unhas vestiriam de cores vivas aqueles dedos de se dar carinho.

que importava a loucura da moça me ter quase levado à definitiva desconexão? não era melhor ser louco com ela do que sóbrio com todo o resto do mundo? o que são e dizem os sãos não nos entedia?  assim, a imprevisibilidade da louca me seduzia: não ter razão com tanta meiguice e tanta distração na fala que se emprega apenas em ser doce.

então... ela me deixava, ela chorava convulsamente e depois nada mais dizia até que sumisse de vez: primeiro a imagem do corpo de mulher se teletransportando para longe de mim, depois era conferir o nome fosco no canto da tela, apagando com ele a esperança que acendera aquele dia. anoiteci por dentro, até que voltasse o dia seguinte a me enviar corações. e eu nunca havia escrito tantos parágrafos para alguém daquele mundo. 

ela voltava como se nada tivesse acontecido, então, nós, que nos jogáramos fora na noite anterior, nos retirávamos do lixo na manhã seguinte. ela se entregava, dizia que era minha. daí pouco importava a promessa de futuro ou não. eu queria fodê-la. eu queria me vingar dela dentro dela? parecia! ela gemia! um juízo me tolhia de anunciar na casa a minha febre, eu tentava gemer em surdina, dominá-la em surdina.

aah a minha louquinha! a minha loucura que ela trazia à tona de mãos dadas com seus hiatos discursivos! que ela tivesse atitudes inesperadas, e eu nisto também embarcasse, que importava? fora disso havia todo um mundo comum, toda uma conduta decente que já me havia saturado, me abandonado também... me julgado sobretudo! demorei a descobrir a loucura da louca, e soube rápido quando afirmei para mim mesmo - "é louca!" - que isto não impedia nosso relacionamento. que talvez isto até viabilizasse o novo. que talvez a louquinha merecesse mais do que tudo o que eu era e vice-versa. embora eu soubesse que nem tudo na loucura que viria, já nossa, seria saúde!

 com aquela voz ela tinha direito, com aquela infância que me resgatava, a louca merecia tudo. com aquele pouco caso que tinha com a verdade, que precisou ter depois do que a verdade fizera com ela! 

é claro que, apesar de louco, eu tinha os miolos de calcular no lugar, e eu via a hipótese do fim trágico. mas o que não é trágico no fim de todos, loucos e normais?
somente o cômico escape... e com a louca eu tinha mais chance de terminar com comicidade. só a loucura para nos persuadir ao inútil que é viver.mas não era por calculo, não se iludam, amigos... não era por calculo, desses que se põe do outro lado de um balcão, que eu continuava com ela. era por vida (de parágrafos excelentes)! 

terça-feira, 12 de setembro de 2017




Tenho repetido o show de “quem eu sou” ou “quero ser” por muito tempo. O meu desencanto crescente com os discursos (inclusive os meus) e também com as palavras me transforma gradativamente num degustador de timbres. Isto! Sinto-me inclinado a ignorar os teores e degustar, em vez de entender; em suma, em vez do que dizem, as suas vozes é o que me interessa. Sinto-me inclinado a não pensar, mas a farejar, a tocar, a sentir... É como se a racionalidade fosse em mim, no meu país, na minha classe social, uma máquina obsoleta. Se me injetam argumentos, opiniões, tenho desejo de que parem, de que falem em outra língua, de que nenhum significado me toque, que apenas a entonação me chegue, como uma canção de ninar, como um frevo, uma salsa, uma valsa, um samba, um mambo... Se a essência do homem é “animal racional”... Sou mais animal. Sou incapaz de acreditar, logo, também de sonhar de olhos abertos. Não sou a favor de nada! De que serve meu favor ou meu apoio? É apenas ilusão de dever cumprido, mas eu sou incapaz desta ilusão. Não há orgulho nesta incapacidade.

segunda-feira, 11 de setembro de 2017