quarta-feira, 28 de setembro de 2016

a guerra da manteiga

a guerra mais importante para mim para a história do mundo é a guerra da manteiga. a minha esposa põe a manteiga na geladeira. diz que fica rançosa. acho que uma vez teve uma que ficou assim antes de acabar. a minha mãe sabe que a manteiga fica dura. o pote está na geladeira. o pote está sobre a pia. o pote está na geladeira. o pote está sobre a pia. o pote está na geladeira. a guerra mais importante.
é muito difícil, muito raro, que alguém consiga enxergar boas qualidades numa pessoa próxima se estas boas qualidades não são as de convívio. alguém capaz dessa raridade de compreensão estaria entre as melhores pessoas para se conviver.

se as pessoas me pedem uma coisa eu penso que elas querem mais e dou mais. Se elas me devem algo sabe deus o que há com elas!

terça-feira, 27 de setembro de 2016

há aquelas vezes em que o raciocínio nos apresenta uma clara posição a ser alcançada. o problema é que nossos braços não são tão longos como nosso raciocínio. nossos braços são antes morais que racionais. são mais agentes os homens de braços longos e raciocínio curto.

As pessoas se decepcionam com outras pessoas sempre, porque esperam muito delas e orçam-se merecedoras. Daí infere-se que poucos ou mesmo nenhum ato desses "personagens" é espontâneo, eles atuam para fomentar seu merecimento.

para diminuir a crueldade é preciso retirar prazer de uma das pontas do chicote.

sou um homem jungido nas horas, vou arrastando-as, nem sempre por gosto, às vezes por receio do chicote... e sempre girando com pernas de ponteiro, machucando meus pés nesses números. giro, um boi, o engenho louco de me vingar com açúcar. vingar-me dessas horas circulares e... concomitantes: sinto no cálcio dos risos o sal do suor e da lágrima. a necessidade arranca da folga os dentes de rir para que mastiguem. por necessidade, indistinguíveis, engulo tudo... suor, sangue, riso: produtos acabados, desembalados. quase ouroboros, engulo esse tanto de agora cumulado de antes e doravantes.

a revolta contra uma mentira não representa necessariamente a luta por uma verdade.

a maioria das pessoas é irritada. o irritado tem mais chance de sucesso.

este horror que vejo nos outros, também sou eu.

não é que pessoas com cheiro de livro me agradam mais. é que a tv não tem cheiro.

há escritores que melhoram na escrita se têm pouco tempo e espaço para realizá-la. atrapalha-os um longo espaço de tempo. eles perdem os objetivos, se perdem do caminho, perdem um ritmo, acabam adicionando mais vozes ou tornando tudo muito explicadinho, corrigem "erros" favoráveis e quando chegam ao fim esse já não é tanto o fim que pretendiam e "sim" o ponto final do esgotamento psíquico.

para nós mesmos

o pior não é ser burro. o pior é ser inteligente a ponto de às vezes se sentir burro, já que o burro mesmo não se sabe.
Ele queria matar só o filho. Matou toda família por piedade.

Será que meu assassino poderia ser mais injusto comigo que eu mesmo? Ele teria de ser mais lento e cruel que um tiro na nuca.

Acabo de ligar o celular na tomada para carregar como fosse uma vida, essas tecnologias, fala-se muito mal delas, tantos pensadores, que tornam a coisa quase uma verdade... Pode ser que seja! Precisamos de convívio, dizem! Evito ir às ruas porque me dou para qualquer um e muitas vezes não me devolvem. Sou um pouco doente. Um cristão quase de verdade. Foi assim que comecei a usar drogas, para ter as emoções que não podia mais retirar dos convívios, de onde só me vinham decepções. Não preciso que um psiquiatra pesquise e me dê causas, diagnósticos... não preciso de um analista que sondou menos almas que eu, que fiz de sondar almas minha vida, meu ninho. Talvez eu seja um escritor. Seria um consolo se pudesse acreditar nisso. Mas quem diz muito fácil que é um escritor, não pensa muito, e no máximo consegue ser um escritor ruim. Agora é hora de ficar sozinho, porque tudo é uma grande dúvida e as coisas bonitas não se pode ver, porque são abstratas, e talvez sejam invenções, e talvez não sejam puras e estejam impregnadas de uma merda, uma sujeira abstrata. Gostaria que algo como a amizade fosse visível, palpável, concreto como uma pedra. Então eu a entregaria a você.
Você escreve algo triste. Uma triste sentença. E aqueles que só querem ver coisas alegres ou que só querem ver coisinhas belas dizem que você é pessimista. Eles não podem suportar que a realidade seja triste. Eles não sabem o quanto você trabalhou, o quanto você se empenhou, sofreu e vivenciou para chegar a tal sentença. Porque eles só querem acreditar no que dá prazer, mais paradoxal que seja - num deus bíblico bondoso embora vingativo, no amor generoso, mas exclusivista etc. - eles o chamam de "pessimista" e nunca de "realista", por mais lógica que  sua sentença lhes pareça, por mais verificável que possa ser. E isto o deixa só e incompreendido, e isto atrasa toda uma mudança de valores que talvez nos adequasse, que nos roubasse da necessidade de hipocrisia. Mas esta é só mais uma entre outras tristezas. E você continua.

O problema com essas tecnologias de relação à distância é que reencontramos velhos amigos. E o que resta é apenas o silêncio da velhice. Sem objetos entre nós, não resta nada. Porque não nos interessamos. É por isso que os homens se encontram no bar e colocam entre si copos e mais copos de cerveja e quando não aguentam mais beber eles precisam ir embora.

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

NATURAL

por mais louco que tudo pareça no passo do progresso em que vamos, nas coisas que são ditas e aplaudidas.... tudo ainda faz o mesmo e velho sentido que fez a natureza. por mais que se contradiga o natural com a moral, ainda somos bichos. e nossa moral uma sofisticação do rosnado inibidor de um bicho.

terça-feira, 20 de setembro de 2016

é num mundo em que a honestidade está trabalhando e a corrupção está dando uma festa, que você tem que escolher o seu time!

essas músicas são mais corajosas que os pais. ela vai no cacique de ramos, ela vai na portela, pagode em xerem, pagode em irajá... foi parar no andaraí. filha sua?

eu, quase sempre disponível pra pouca utilidade, perguntei pra criatura:

- qual que é o lance no momento? suas intenções, moça? - e acrescentei na velha e boa precaução - seja clara e franca, como se cobrava dos homens antigamente.

O SUJEITO E A BURRICE

e tem aquela outra idade em qual não morrer daqui a pouco é sempre burrice, até que a morte os separe.

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

O PÃO COM QUE SE VÃO

abro a porta aqui. é preciso entre "erres" abrir a porta barulhenta. entre letras somente. apenas no mundo aqui, neste vácuo. o sentido coçando o sentido dos outros. do lado de fora - onde há carnes e dentes - estou perdido. abro a porta. caio no branco. sangro. suicido. é preciso não sair do papel. não perder o personagem. não deixá-lo pular da fantasia à realidade e atirar um ator pela janela.

sou tomado por uma angústia e quero dizer que está tudo acabado com 40 anos de idade. ah porra! muitos cigarros e bebida. sobretudo os amigos idos. acabei com uma piscina no quintal, dois livros na estante que às vezes me aborrecem. terá sido falta de cuidado? só posso ser assim. eu jamais pensaria no luxo de ter um abajur. parece-me tão antigo, quando as coisas que usávamos não se auto-iluminavam!

súbito, como tudo que se perde rapidamente de um contexto, vejo bruno, negro, gordo, deitado comigo na varanda. e meus pais abrem o portão. vejo o mundo inteiro abrir o portão. como entender, sendo entender apenas uma das partes dela, a economia de minha alma? não lembro direito do meu pai. minha mãe está no quarto. e é 12/09/2016. longe demais para que isto se torne um livro. estamos longe demais da varanda. a casa à venda.

às vezes penso em comprar um carro. quando a gente passa muito tempo sem ter uma coisa, acaba que a gente muda se a consegue. homens donos de fábricas de carros sonham em ter um amor? no meu sonho sonhariam. são 8 horas da manhã. que me fará sentir mais preciso no futuro dizer: "e onze minutos"? sobretudo agora que já são 12. para boa economia de minha alma, eu penso que eles sonham em ter um amor, contudo ainda será preciso, para equilíbrio é preciso que eu seja o dono da fábrica de amores.

eu sonho que todo o planeta foi dar na beira do mar para lançar garrafas de náufragos na esperança de um encontro.

eu costumo mentir. como farei pra me entender depois comigo mesmo, se às vezes nem sinto que estou mentindo? os amigos são aqueles que se digo que minto eles pensam sempre que minto de uma maneira mais vil do que eu estou querendo de fato dizer. é por isso que eu mentiria para menos, a respeito de minha vileza.

já trabalhei entre homens e entre mulheres. já morei entre eles e elas. a maior diferença eram os travesseiros. e que entre eles quase me esqueço do sexo. entre elas quase não lembrava de nada. eu gosto das mulheres de um jeito que elas não gostam de mim. não se trata de um amor incompreendido, se trata de qualquer "bom dia!" trocado entre sexos opostos numa esquina. ele tem uma coisa na cabeça: "ela!", que é bem capaz só tenha respondido "bom dia!". a única coisa em comum entre eles é o pão com que se vão.