sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

despretensão


A minha relação com a escrita hoje é tão outra. Não sei se melhorou. Isto é com capitalistas. Escrevo muito mais sem ganância. Não me vejo pisando degrau nenhum na escadaria de algum reconhecimento, não quero falar destas coisas com meus amigos. Só chego aqui espontâneo e/ou explodindo, mas como raios de um Céu Turvo. Não me canso escrevendo senão por conta do tipo de aparelho. Sei que sou muito mais livre com letras. Havia antes um eu que esperava. Que quase berrava para um mundo o profissionalismo disto. Hoje haja um carinha talvez. Apenas um carinha por trás destas. Aah veja lá se não é com muita brincadeira que escrevo isto, quero até persuadi-lo! Sabe, o que sinto mesmo é que vou me tornando um cara cada vez mais legal. Se melhoro como escritor? A quem devo isto?

O homem é o animal mais distante de si.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

deus me livre de querer ter peso pra outro! duas pernas... muito as quero!

coisas que me importam

é preciso... não!, nada é preciso! navegar, viver...

eu gosto da história dos homens!, são os únicos que escrevem ou falam suas histórias. são os únicos que enxergam histórias. é claro que os outros animais podem viver histórias, porque os homens veem história. o leão tem uma participação histórica numa manada qualquer. numa família, se houvesse família. há famílias em manadas... não no sentido humano, tampouco civilizado. é por isso que eu gosto da história dos homens. e ela começa com o homem contando história. 

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

QUE FALEM!

fale em mim o piedoso ou impiedoso! fale em mim o que o faça ver direita ou esquerda. algumas vezes o indiferente, por andar muito calado! fale em mim um ateu ou um cristão... ou os dois se afoitem numa conversa sem fim! fale o que nem mesmo eu sei que há em mim! o que houver de conceito ou preconceito seja exposto! não tenho ideologias da mesmíssima maneira que não tenho filhos, não há orgulho nessas tendências não adquiridas. tampouco filhos ou ideologias são em mim alguma falta. menos ainda são as palavras uma picada que abro em território selvagem, por onde darei meu próximo passo civilizado! não me têm projetos grandes para uma nova realidade, nunca me capturaram de verdade. tenho a realidade de agora, a luz ampliando no chão o vão aberto de uma porta é o meu partido. o medo, a vontade, o risco... um jardim espera por mim sem expectativas de éden. tenho obrigações de um dono de casa, sem que eu seja dono de nada. tenho um homem dentro de mim, intuo muito bem minha semelhança com os outros. ela me diz que está melhor arranjado cuidar de mim mesmo. mas quem senão eu sabe de que cuidados necessito? pois fala em mim também o doente!

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

ah, já sei! aquilo que eu gostava de viver num canto. o sonho que eu levava pruma noite pra ter companhias platônicas. alguns velhos amigos reconstituídos como frankenstein um do outro. sentir alguma piedade dos mortos em mim. sou um novíssimo cemitério. é aquela coisa gostosa, que eu levo prum canto, pra ficar comigo quando há silêncio, os demais dormem. é saudade. sim. eu acho que aquilo que sinto, coisa que me acontece com minha colaboração... mas não tenho daquelas que me roubam não! há consentimento. contribui com o sentimento de vida! aquilo pode ser saudade! sim, eu sinto quase que de propósito.

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

ter


disputar pares de orelhas
como pratos de feijão
como como entender como
com a fome de um leão

ter na mente a própria cerca
ter no pé o impróprio chão
fome e sede por motor
e água e sal só na visão

só o sonho alimentado
vem me dar satisfação
a morrer feito objeto
está sujeito o cidadão

ter o peito contrafeito
ter os braços penhorados
ter em falta a própria mão

ter um rei por deus eleito
ser deles subordinado
e deles ter desatenção

ter num olho um campo vasto
como um boi arando pasto
de uma alheia plantação

ter no corpo o brio casto
e por herança um verbo gasto
prega resignação


segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

IRONIA

aprender o melhor da solidão no convívio com os outros.                                

Penso que se Nietzsche tivesse um pouco mais, não falando de tempo, mas de diversidades, e não de cidades, mas de corpos, ele poderia ter chegado a poesia de dizer: vim a vida tirar um vestido! Meu amigo, como é triste pensar o que lhe faltou para isto!

UM SENTIMENTO

o capitalismo perdeu a graça. não é uma questão de lógica, de cálculos, de ser vantajoso ou superior a outros sistemas utópicos. é muito tempo vivendo nisto! é já não olhar bem a cara do outro esperando o lucro! não tenho outra coisa a sugerir, meus amigos! não tenho uma solução... é um sentimento! que fazer quando algo se trata de um sentimento? contra-argumentá-lo com que lágrimas verdadeiras ou risos sarcásticos?  me convidam para um réveillon a R$ 150,00 por pessoa. há vírgulas entre números. cifras em que se pensar antes de um prazer. parece que já levam em conta que estamos sem saída, sem amigos, que a cidade é isto mesmo: um funil que vai dar em pelo menos isto! pelo menos posso! pelo menos tenho! pelo menos... qualquer coisa exclamada com orgulho! preveem, estes comerciantes, escorando o queixo no punho sustentado pelo cotovelo escorado no balcão, as portas arriadas em prata pra dentro e pra fora, não mares! não cantigas! não moças bonitas de chinelo e sainhas recém saídas de portões que deixarão suas gravuras em nossas memórias! não pensam mesmo - "Que doido!" - penso com voz de menino que grita - outras hipóteses de levarem a vida, mas preveem que já não temos amigos ou deles e de suas propostas, se somos ajuizados contemporâneos, devemos é estar cansados. R$ 150,00, e sou ejaculado em perguntar: que será melhor: estar entre amigos ou garçons? não penso se é caro ou barato! penso num homem pensando se isto dava lucro, luzes do comércio apagadas,  consumindo seu tempo com este pequeno banco de dados de calcular rentabilidades! colchões afundando no peso disto! ele sequencia, ele gera coesão entre essas duas frases: "R$ 150,00", "meu amor!". e "seu amor" está lá dentro, na cozinha do estabelecimento, lavando os copos de um hoje (fomos até tarde! - voz de um garçom prum taxista inédito) pouco lucrativo! "R$ 150,00 por pessoa", ele pensa se isto dá lucro. "lucro pra todos!" dirá num anúncio brilhante! como gostam de dizer os promotores: "ninguém leva prejuízo! todos ganham!" não há mistério, primeiramente! mas não queremos um engano justamente por que é capitalismo? o chato é ter de, com este convite, não pensar nada novo, apenas uma velha minha poesia parafraseada por mim mesmo: chegamos a um tempo tão  miserável, que tudo que podíamos fazer pelo outro era pagar. e tudo que podíamos fazer por nós mesmos era economia. é um sentimento, meu amigo! não me venha com fatos, não há fatos contra sentimentos! são eles que buscamos, são eles que protegemos! são eles um fim! não foi sua arte ou a minha que perdeu o valor por não ter valor monetário, amigo! foi o capitalismo que não achou outro valor além desse!

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

ele diz: quando você chegar onde você quer, não esquece de onde você veio.

eu respondo risonho: eu acho é que já passei de onde eu queria!


diz: as pessoas aqui perguntam por você.

eu respondo: diga a eles que agora posso ser só o que eles quiserem.


quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

chegamos àquele ponto
em que a lucidez sobrepôs o encanto
e fomos viver
cada qual
no seu canto
e os outros nos deram suas caras de espanto
que era saber pouco do que lhes parecia tanto

em louvor aos suicidas

a gente tem mania de pensar que quando a gente sofre há algo errado. a gente sempre pensa em culpados. em santos! em pessoas de mal! a gente tende a criar esses polos, porque a gente sofre. a gente nunca para pra pensar que sofrer pode ser uma lei da vida, pode ser fundamental, natural, acidental. a gente parece que quer sempre apontar uma arma pro dentista, pro vendedor, pro empresário, pro ateu, pro político, pro doutor, pro pobre, pro branco, pro policial, pro negro, pra mulher, pro gay, pro negro, pro pastor, pro negro, pro negro, pro negro. pro negro gay e pobre. mais um disparo na cabeça, pra confirmar que ele já não se mexe... a gente tá sempre pronto pra apertar um gatilho e disparar um cartucho repleto do mais explosivo: a vergonha de serem o que não somos.

pra mim quem não usa drogas pra viver é maluco.

ansiedade

agora terei de esperar alguns anos, que devem demorar horas!

já tô virando aquele sujeito que diz àquele outro, que vem depois do fazer me criticar: ah, me esquece!

alô, anatel? quanto a gente tem de pagar pra não receber mais ligações de vendas?

sábado, 26 de novembro de 2016

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

AS REUNIÕES AMIGÁVEIS DEVEM SE BASTAR.


Hoje penso assim: se eu quero questionar o amor, Deus, os desejos - isto é problema meu e merece a descrição e delicadeza de ser retirado do convívio comum e pessoal. Minhas verdades e desejos são antes "meus" do que "verdades" e "desejos"! A minha inclinação para investigar, assim como o que me apraz que seja o objeto investigado, são muitas vezes minhas investigações e não das rodas de que participo. Colocadas, se tanto, num blog, em livros. Em suma, veiculado em meios discretos de existir e não nas rodas amigáveis. Ali os encontro e converso com eles se participo de valores convencionais pertinentes, se a isto estou disposto. Claro que algumas rodas "rebeldes" me possibilitam a temática de questionar desejos, o amor, deus... São, enfim, rodas filosóficas de fato! Mas elas nunca possibilitam a autoanálise no sentido de análise da roda em si, os motivos de estarmos ali quando não parecem tão nobres e cristãos devem ser escondidos por delicadeza etc. Para unir uma roda, qualquer que seja, ou mesmo duas pessoas, são necessários enganos, ilusões de mútua compreensão ou de interferência. Os comensais creem, cada qual, que com as suas verdades (opiniões) podem alterar as verdades dos outros, os próprios outros. Normalmente, lecionamos nas rodas, nas mesas, com nosso tom de voz, nossos gestos, nosso apetite em dizer o que dizemos, e não própria e exclusivamente com o que dizemos. Se é impossível alterar a realidade de outro? Diria que é impossível não fazê-lo, mas não como queremos com as palavras, não apenas com o verbo - cru, sem corpo - pretenda. Portanto é absurda aquela proposta bíblica de que primeiro veio o verbo e depois o mundo, a vida! Precisamos entender que os discursos emanam da vida, são complementados pelas circunstâncias. Quando você pensa dizer algo com as palavras, pode o estar negando com o corpo, com ações, gestos, tom de voz. Também pode não estar conseguindo a atenção necessária para transmiti-lo com seu devido peso. As pessoas prestam atenção muito nelas mesmas nas rodas, policiam-se, querem ser antes de tudo queridas ali. Quanto a serem ouvidas, basta que tenham a sensação. Sair de uma reunião achando que o que você disse num dado momento será levado em conta em proporção à força ou à fraqueza que o fez dizer,  em relação proporcional à sua necessidade, mesmo ignorando esta força ou esta fraqueza, é pretender-se um Deus. É uma megalomania distraída de si, talvez a megalomania em sua forma mais nociva, quando ela começa a esperar como se lhe devessem resultados tais e quais. A força ou a fraqueza, a necessidade são suas, os outros a ela nada devem. Exceto se assinam um contrato  (melhor que tácito), mas estas são rodas profissionais, ou seja, pouco amigáveis.

quarta-feira, 23 de novembro de 2016


Ela se aproximou como se a vida entrasse dentro de mim. Cada vez mais fundo. Era o frio de dentro quem me tremia. Sedento do calor de alguém de fora. Ah, essas emoções! Eu já estava trêmulo na espera! E se prolonga o beijo - Aí, meu amigo, não tinha Deus por linhas retas que escrevesse direito.

só para um demônio teríamos de dizer quem somos.

ACASALADOS

Penso em todos os homens e suas costelas estofadas, as pernas de depois do serviço, dos ressaltos da vida, o coração no peito esquecido, tórax fartos de gols; e abdomens, de feijões. Penso nesses animais estirados no sofá como cães na coberta, ainda famintos do mundo. Do mundo tarados. Acasalados. Amansados por dias demasiados repetidos. Quanta coisa acontece se lhe mandam um beijo?

terça-feira, 22 de novembro de 2016

OPINIÃO IMPRÓPRIA

enquanto só vemos a realidade que nos dão pra ruminar, enquanto nosso discernimento só serve à nossa separação, só de estarmos todos sós é feita nossa união.  desconfio das cabeças com uma própria opinião quando os pés de quem opina não pisam um próprio chão. 

domingo, 20 de novembro de 2016

SENSATEZ

...não era apenas não ter para onde ir por falta de bens ou outros recursos. era não querer fazer mais nada em troca de nada lidando com os homens, nem mesmo com a minha família, eu não queria pedir que me ajudassem, não queria falar com meus irmãos, não queria vender uma casa (já havia não recebido pela venda de uma), não queria lhes vender meu trabalho, não queria ter de lhes cobrar ou mesmo esperar algo em troca, não queria ensiná-los a tocar um violão, não queria assinar um contrato, não queria sonhar com eles, nem lhes dar as mãos, nem mesmo numa cirandinha, nem queria mais lhes dizer o significado de uma palavra, não queria encontrá-los, não queria ajudá-los ou me fazer de ajudante de um mundo melhor; na verdade, eu já não tinha esperança em compartilhar com eles uma música, uma poesia... repreendia-me até mesmo o hábito de imaginá-los, de lhes dar uma informação de rua, de trocar algumas palavras mais... nem sei como eu ainda conseguia lhes dar "bom dia!", bem, acho que assim eles me notavam menos! era por isso que eu escrevia livros, e não cartas: só conseguia acreditar um pouco em gente distante que eu sequer podia imaginar, desconhecida, talvez do futuro ou... talvez as pessoas sensatas tivessem arranjado já algum jeito de cair fora de tudo isso! mesmo que esse jeito fosse a loucura ou a morte! certamente! não havia nem mesmo um endereço de amigo ou de lugar que me admitisse ir, apesar de tanta gente simpática! tudo que eu queria era estar longe deles, mas não havia fuga física, o silêncio de um corpo os inquietava. para manter a distância, havia apenas palavras e dinheiro. talvez eu estivesse doente, mas eu não queria ir ao médico! a doença era tudo que me restava, e eu a chamava de "sensatez".

sábado, 19 de novembro de 2016

O APAGADOR AMÁVEL

Apertando um pouco a visão para aguçá-la, consigo ver algumas ideias escritas no quadro-negro de nossa ignorância, assim dispostas: 

Verdade:
Justiça; Liberdade; Igualdade...  

Outras se dispõem em letras muito pequenas, é difícil deduzir aqui do fundo da sala; no entanto, me falta coragem de me aproximar e fazer realidade do que é temerosa suspeita. No mais, o professor, Sr. Conveniente, é muito rigoroso e não tolera inconveniências: dúvidas. Resolve-me a espera, na aula da Sra. Dor - muito mais construtivista, por sinal -  farei um esforço, levantar-me-ei. Se encontrar lá escrito o que parece daqui do fundo ser "Amor", juro que apago! É isto ou matar aulas e cantarolar nas alamedas desta travessura: "Ah, a vida não é algo tão de se saber, mas de se gastar".

Eis que a aula da Dor vai começar, muitos alunos saem correndo para fora da sala... alguns tropeçam e não conseguem sair, outros trouxeram analgésicos para dormir em plena aula. E a professora entra dizendo assim:

- O sr. Conveniente já lhes explicou o que é útil crer para a civilização, não é mesmo? Agora lhes fará bem um pouco de verdades! O caso é que cada qual se aprofundará na matéria quanto mais puder suportar-me. Os que trouxeram analgésico podem sair da sala! Quanto aos demais... Acontecerão aqui aprendizados muito inconvenientes e de utilidade ainda duvidosa.  Mas sabemos que todos os grandes gênios tiveram de, bem ou mal, frequentar minhas aulas. Mais gênios foram o quão assíduos e atentos aos conteúdos. Bom, o que cada um aprende aqui é diferente, porque é muito particular... Ao contrário do que muitos dos senhores pensam, estou aqui pára ajudá-los na vida! Eu os aconselho, se não quiserem ter que assistir mais aulas dessas do que o necessário, a não saírem alardeando os teores de nossas lições por aí, aprende-se mais solitária e silenciosamente, até mesmo porque a maior parte dos teores é incomunicável...

A verdade não precisa de crentes. A civilização, sim!

A RESPONSABILIDADE

Responsabilidade é algo referente a um todo que não podemos fazer responder, sequer compreender. Que o homem a assuma é sua maior ousadia, uma vez que ela jamais poderá ser individual em nenhuma circunstância. Exatamente porque sempre deverão haver circunstâncias. Assemelhar a responsabilidade à verdade é tarefa do orgulho humano, em que este se encontra debruçado por milênios. Que responsabilizemos e falemos em indivíduos "culpados e inocentes" ou "bons e maus" nada tem a ver com uma "realidade" descoberta, mas com uma "realidade inventada", uma espécie de utopia que precisa ser defendida, tal como: "liberdade, justiça...", em outras palavras, trata-se de fomentar uma crença conveniente. Muitos pensadores se gastam agora nesta defesa: "O homem é responsável, e quem pensa diferente é canalha!"; "Quem pensa assim... Não dá nem para conversar!"; "Eu não sou uma alface!"... É claro que, neste caso, eles ainda não têm inclinação para discernir uma "Necessidade Funcional", uma "Utilidade Civilizatória" de "Verdade". Como? Não sabem que muitas mentiras - inclusas as cotidianas individuais, as gentilezas, os dogmas etc. - são necessárias à construção e à manutenção do que chamamos "civilização"?! No fundo, tais pensadores, como investigadores, são antes anedotas. No entanto, não sejamos cruéis para com eles, como se fossem responsáveis pelo que dizem. Fato é que se empenharam e continuam se empenhando em serem úteis à sociedade, natural que esperem o troco. Nisto são como a "responsabilidade": útil, necessária, mas em hipótese alguma verdadeira.

ele já possuía os principais ingredientes para a grande tragédia : um grande prazer em viver e algumas esperanças.

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

A ESTRADA DE TERRA

Sento-me de manhã sob o sol, e vislumbro num meu dilema a sua segunda hipótese, a hipótese mais desconfortável para os meus afetos. Tendo entender nela o que seria tolice e inteligência, quais suas consequências. Um bom punhado de afetos sobreviveria a qualquer uma das escolhas, portanto não me ajudam a decidir. No mais, que me importam as consequências se não tenho projetos? Ou será meu projeto a falta? "Sim, penso que ter tanto aparato fez da casa um mausoléu! Mas e não tê-los?". Ocorre-me então a falta do projeto, a falta de ter a razão como guia objetivo... E a falta de projetos é a única coisa que nos faz ver os outros sem ser como ferramentas ou empecilhos? Num segundo instante, "olho" para trás, talvez para ler um projeto em meu percusso, um plano de mim mesmo escondido, há tanta neblina no caminho de voltar no tempo. Não consigo me ver direito, entender a necessidade no caminho até o agora. Não acho para mim um fazer que não seja um evitar. Sou um "desistir" que não achou outra coisa que tentar ou que quando enxergou que o melhor era ser bandido, já se encontrava domesticado, cristão, cidadão honrado. Digo-me que estou cheio de cansaços de convívio, que jogar com outros como pinos é imprudência. Alguma coisa parece ter me enganado, ter me roubado. Penso que foi a proteção de um contato com a realidade. Vejo as pessoas ornadas, vejo as pessoas ante os espelhos, vejo-as se preparem... Pessoas se embelezando segundo a moda moral ainda são pessoas, talvez isto, mais do que qualquer outra coisa, sejam as pessoas: mecanismos de autoembelezamento. Enganei-me com relação a alguma dura realidade quando a beleza delas consistia em me emprestarem conforto: generosidade. As próprias pessoas foram minhas maquiagens. Trabalhei-as para isto? Nesta altura parece que tenho fome de substâncias desgarradas de adjetivos. O que fazer com as pessoas? 

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

ALEGORIAS E ADEREÇOS

o traje a rigor do rancor é pena

escrever é a cela em que exercito minha máxima liberdade

eu conversava muito com a moça
e como um dor com que se acostuma
ou como um amor que se consome
a minha voz foi entrando em sintonia com que era tédio
as palavras minhas já não carregavam no colo um sujeito novo
eram bengalas de um velho batucando em sua piedade

em certa altura da evolução, o que ascende da ameba supera o que descende de Deus.

no meio do caminho da dor que quis te dar um tapa na cara tinha um cérebro
no meio do caminho do amor tinha um cérebro 
calculista

eu gosto dos homens que cabem na roupa, são como manequins por quem passo. mas eu mesmo tenho o destino de ir do que quer que eu seja. e as roupas, parece-me, não tem cabimento!

as pupilas semicerradas, metade vendo com os olhos; outra, com o pensamento.

o que eu acho interessante no amor é que ele é o lugar em que mais interessa o que a gente sente.

em que a responsabilidade se divide, se multiplica a negligência.

co-habitante

em mim, este sedento, mora outro, satisfeito, entediado. ele não gosta de comida, de música, de sexo, não pensa poesia. as palavras são presentes, não têm passado, não vão em frente. não substituem o silêncio, são interagentes.

Duas cabeças se confundem mais que uma.

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

esta ambição de ser importante pra sociedade só é menor que aquela de ser inútil pra ela.

EXCESSO

- suspeito que nossa psiquê seja este labirinto em que consumimos nossa inércia. podemos viver com muito menos conceitos e ideias, com muito menos atividade cerebral... a utilidade aí não parece ser nossa, e nos faz engendrar que sirva então a um ser vindouro como uma espécie de ferramenta aprimorada. o pensamento, este é o nosso excedente! ainda não sabemos como utilizar, como aproveitar, em que trilhos colocar este potencial, o pensamento ocupa-se de coisas vãs... tolas...  atrapalha inclusive o sono. nossas atividades mentais em larga escala não são em nada primordiais para sobrevivermos. é como se o cérebro sobrasse... e porque há esta sobra é que somos humanos. se algum dia nossa alma já não for um excesso, digo, se ela se ocupar como um órgão vital ou se tornar útil como nossas mãos, nossas pernas, nossos pés... seremos tão automáticos e objetivos quanto um organismo em que tudo se emprega fundamentalmente para o florescimento da vida, talvez como uma planta... talvez quando nossa alma se tornar fundamental peça à capacidade de vivermos, de saúde, outras partes de nosso corpo se tornem excedentes, supérfluas. tornem-se heranças de um ancestral ultrapassado. é possível que membros úteis para o homem atrofiem e sejam amputados como o rabo de um animal doméstico... por enquanto, esta suspeita aqui registrada, entre tantas outras coisas, não passa do produto deste excesso.

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

poucos têm alma, a maioria tem um sistema operacional.

hUgO pElLeRa

DEFESA DE BRUTUS

A César o que é de César. É de César o uso impiedoso do punhal.

o diabo é o rabo que deus esconde por vaidade.



CHOVEU

Sempre há o lado mais vulnerável. O lado que começa, mantém ou resta mais interessado. Não se tratam de verdadeiros valores diferentes, proferidos por um Deus ou pregados num mundo ideal, mas de avaliações de um para outro, de outro para um, que serão inevitavelmente diferentes o mais aproximadas que sejam. Apreciações desapercebidas do conceito de justiça. Em outras palavras, "o que eu sou para você" e "o que você é para mim" não possuem pesos iguais. E mais, também difere minha e a sua força de suportar a imagem que nossa se desenha no outro. O que me fez intuir que, logo logo, iríamos mesmo nos referir um ao outro versando como injustiçados. 

Contudo, antes da separação, levanto estes atenuantes, estas pré-compreensões que momentos quentes não propiciarão. Sabemos desde então, meu amor, que um deve acabar primeiro que o outro suas necessidades, suas vontades, suas veleidades... E não necessariamente o mais essencial confeccionado pelo hoje, será o mais essencial confeccionado pelo amanhã, pois tenho agora minhas circunstâncias - presas no agora, do agora dependentes - quais me aproximam e me afastam de você; e você tem as suas presas aos seus instantes. Por que deve mexer tanto com nosso orgulho que as circunstâncias, os expedientes nos afastem? O "querer" sempre dependeu de todas as coisas em volta e por dentro de nossas vidas, o querer pelo outro sempre dependeu antes de necessidades satisfeitas. O "ir encontrar o outro" demanda tantas coisas menores, como passar um batom ou fazer a barba. Ah, e venha contemplar comigo, são ainda tantas coisas involuntárias, surpreendentes para nossa pouca previsão de sapiens. Veja, meu bem! O involuntário começa dentro de nós a bater em forma de motor fundamental! O que sofre em nós, sendo assim, é também prepotência, meu bem. O que sofre a separação como uma morte é prepotência, é altíssimo orçamento próprio e ignorante.

Sofremos porque num dado jogo deixamos de ser prioridade. Mas o deixamos de ser como o viemos a ser. A diferença, o contraste que não suportamos, deriva de uma deficiência em nossa visão: Você pensava que eu livremente a tinha escolhido, nisto ignorava todo acaso que a trouxera até mim. Agora me enxerga sozinho num palco vazio protagonizando o ato de abandoná-la. Ah, meu bem, não vivemos num universo de pureza! Cruel foi quem colocou entre nós a miragem demoníaca da rejeição, da traição, do abandono. Todas essas coisas só parecem sórdidas enquanto contrastadas com os vapores de um mundo ideal e perfeito. Se um dia fomos um para o outro um reflexo generoso de nossas imagens: "nobres, belos, deliciosos aventureiros..." Tal felicidade já não encontre a mesma oportunidade de acontecer. Sabe que eu, pela intensidade incomum daquela alegria desde que nos demos as mãos, já intuía sua raridade? Quem sabe ainda possamos concordar em: "Parece que foi efêmero demais!"

O que houve entre nós foi espaço para que nos projetássemos um no outro, foram forças tantas, muitas incógnitas, que para esta possibilidade atuaram. Foi uma brecha no meio de tudo que permitiu que nos víssemos por um átimo. Este "átimo" logo pareceu muito apertado, então pelejei, pelejamos, em fazer deste acaso, um lugar mais espaçoso, até para que pudéssemos deitar lado a lado. Aproximamo-nos então, querida, menos para ver o outro melhor do que para ver o nosso reflexo melhor no outro. Contudo, nossas pretensões nos enganam, sobretudo porque querem ou precisam nos enganar. Nossa pretensão nos diz que o outro se delimita em ser nosso amante, mas o outro obrigatoriamente terá de representar mais papéis na vida: terá de ser filho, pai, irmão, amigo, profissional... Esta multifuncionalidade nossa agiu para nos tornar interessantes, a mesma agirá para nos desinteressar. Muito mais há nos impulsos alheios de alguém equilibrado do que apenas nós, apenas um outro. Até mesmo o impulso sexual, que nos esboçou exclusivos na tela, pintará muito mais do que nossa imagem. Ah, e nossa pretensão gritava: "Já está boa a tela! Pare! Pare por aí!" Adivinhe que mesmo o impulso sexual é muito criativo e versátil, por mais que num dado momento tenha se sugerido limitado em nossa homenagem. Que queríamos, meu bem, era exclusividade ante tudo? 

Pois então! Quando o cotidiano que não é tão meu como eu sou dele - e dizer diferente disto é falsa bravura, tola bravura, porque afinal de contas tantas vezes quis faltar ao trabalho e não pude! - enfim, quando todo meu mundo tornou a me dar espaço e oportunidade de você existir, diz-me em recado sucinto, em tom que adivinho indignado. Ó, quem me dera eu esteja errado! Diz-me:

- Nos momentos de falta de opção eu sirvo!

Ora, mas foi a oportunidade rara que nos uniu, foi a falta que nos uniu supondo o outro um preenchimento. O caso é que quando a falta agiu em nos juntar a primeira vez, pareceu-lhe coisa preciosa, em resgatar-nos agora, parece coisa pouca, mesquinha. Meu desejo por você, ainda existindo, tendo sobrevivido a largos interstícios, parece ofendê-la. No mar do acaso penso que deveríamos ter apreciação melhor pelas oportunidades, se fomos ou pudemos ser um para o outro gratidão com a vida. Fato é que, ao contrário, agora reflito pouca coisa para sua vaidade.

Tudo bem! Entendo que as circunstâncias que a cercam, entre quais vejo brilhar o seu orgulho indomável como o meu, entendo que as circunstâncias que um dia nos uniram, agora, outras, confluem para nos separar. Assim deve ser! Seu orgulho não gosta da disposição do espelho que sou, da tela que pinto nosso caso. Talvez porque você veja como pintor de meu querer apenas o Instinto Sexual. Mas, minha querida, não por indelicadeza minha, mas da vida ou de um Deus, é que este costuma sempre dar o primeiro traço com o pincel das paixões, isto é, senão é o Instinto Sexual o mágico que faz aparecer a nossa frente, sem nos darmos conta, a tela para que pintemos o amor, a felicidade com outro! E o espelho que sou? Ah, anda refletindo tantas outras coisas, quiçá com o aço oxidado no fundo do vidro, pois sou um objeto sensível exposto ao tempo, cada vez mais corroído antes do fim. O mesmo oxigênio que me faz viver, me desbota, me desgasta, me corrói.

Se sofro algo, então, com esta sua lamentação, é o descompasso com o mundo. Sofro, mas dura pouco, porque é como sofrer por algo inevitável, como querer calor para ir ter com o mar e chover e fazer frio. Como preparar as pipocas e faltar energia. A nossa faltou no meio de um filme? Ah, para que interpretações tão indignadas? Precisamos agora de ódio como combustível?

Enfim, trata-se de algo ter se alterado, um espaço foi fechado, provisoria ou definitivamente (posto que a vida é finita). A porta bate com o vento, tendo sido deixada aberta por um nosso esquecimento! Muitas são as coisas que funcionam entre nós além do meu parco controle humano, nada divino! Outra força motriz  entrou em jogo, outra prioridade se sobrepôs. Quando arranjei uma brecha novamente, ela lhe pareceu um meu oportunismo infame! Quis encontrar meu olhar com o seu, mas seu orgulho, força também de movê-la, fê-la virar o rosto. Que dizer? O dia parecia iniciar lindo, preparei-me para fazer um piquenique contigo, mas choveu! Choveu, e atrapalhou aquele meu reflexo belo em você, o tempo entre nós me enrugou, o vento despenteou-me deselegante, o charco no caminho de abraçá-la sujou-me todo de lama. Agora você não pode mais me refletir senão desta maneira. Sei, porque também sou ego por lei da vida, que parece mais reconstituinte à sua imagem ante você mesma esta forma de vingança. Mas advirto que você está a se vingar da vida. Talvez mesmo a negar a força vital que faz do mar sujeito que traz e leva! 

Então você termina de lapidar este adeus, imaginando tê-lo visto na rocha de minha ausência (nem rocha eu, outro inseguro no meio de tudo, tinha certeza que era!), no vento que soprava em seu ouvido, ouviu como minha a indiferença da vida. Peço desculpas? Ó, por você visto a roupa de culpado e dou voz a todas as circunstâncias incapazes de dizê-lo: "Desculpe-nos!" "Desculpe-me, meu bem!", devo dizê-lo, pois quis ser tudo para você, e tudo continuo me esboçando: "Desculpe-me!" Sobretudo por não poder dar a você o respeito por sua singularidade. Nada é igual, tudo espera tratamento diferenciado. Foi como não podia deixar de ser.

Ah, mas a sobriedade diz outra coisa: Antes de eu ter uma vida, uma vida me tinha; antes de eu ter uma verdade, uma verdade me possuía; antes de eu poder prometer algo à sua pretensiosa vontade, tive de prometer a várias outras, mesmo por sobrevivência. E é assim desde que nasci filho não de mim, mas de outros! Quantos são os outros hoje com força a nos subjugar como pais e até como deuses?

Bom, mas agora quer também meu orgulho ver neste gesto seu o acabamento, mesmo que prematuro, do "adeus". Ele encerra uma arte bonita? Torço que sim! Não quis fazer no meio do caos outra coisa senão esta que se pretendia bela! Quis que uma troca de prazeres no meio deste caos viesse a existir, para além de nos consolar, entusiasmar. Não era isto que você também queria? Quem sabe queremos o "amor" exatamente porque nos sentimos pequenos no meio de tudo! Queremos o amor exatamente porque somos apenas um pedaço de tudo, a agir muito mais nas brechas que o tudo nos permite. Se a pintura não é lá de um Van Gogh, tem em sua constituição as pinceladas possíveis de um mundo tantas vezes urgente, com decisões que devem ser tomadas nas pequenas lacunas que possibilitam sermos além de objetos, sujeitos. Ah, se houver apêndice nesta obra, quero lhe dizer: "Calma, minha querida! É só uma chuva redundando gotas em nosso telhado, outros amores, desta farta rega, vingarão. Calma, minha querida! Choveu, e é só isto!". 

quarta-feira, 9 de novembro de 2016



três quiques - DA SÉRIE COISAS OBSCENAS

a sala era bastante espaçosa. as janelas coloniais ladeavam o aposento, envoltas em cortinas rubis. ela levantou o vestido até as coxas, sentada no sofá, abriu as pernas. ergueu-se e sentou no colo de outro rapidamente, três quiques e disse:

-isto é para você sentir que eu posso ser de qualquer um!

(hUgO PeLLeRa)

terça-feira, 8 de novembro de 2016

tez clara - DA SÉRIE COISAS OBSCENAS

- Merda! Qual o nome daquela atriz pornô? Estive com ela esta semana, digo, numa gozada qualquer. Uma pequeninha, cabelos finos, longos, pretos, tez clara...

- Sei não!

-Putz, cara! Esqueci o nome dela. Agora ela vai pensar que não era amor!

(hUgO PeLLeRa)

SUJEITOBJETO

Carlos comprou roupas.
Roupas atraem Carlos.
O frio faz as roupas atraírem Carlos.
Uma costureirinha pobre fez estas roupas no norte.
A fome e a cooperativa fizeram-na costurar.
O amarelo das roupas agrada Carlos
A cultura disse-lhe: representa ouro
A ciência disse-lhe da importância do Sol
A arte diz que o amarelo é quente.
Carlos quer se vestir de vivaz agente.
Nem mesmo querendo, ele quer somente.

Um elogio não deve intensidade, mas verossimilhança.

mal-entendido


ninguém sabe sob que pressão as palavras saem. ninguém sabe o tom, tampouco os pontos afirmam o jeito. dos sentimentos ninguém sabe aqueles que vazam e os que ficam no peito. o que interpretam e não me leva é o quanto fico insatisfeito.

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

EU JÁ SABIA

Olha, Laura, claro que fui descendo a rua de nossa separação cabisbaixo. E se descia é porque vinha despencando do auge de alguma euforia. Na verdade pode ser que a rua subia! Estava tão em mim, nem sei lhe dizer se chovia naquele... dia? Ah, aquele momento me fez um sujeito sem cenário, pisando ideias tantas... Palco de que seria? Lembro agora, flagrando meu engano, que eu pensava que você chegaria por trás, colocaria a mão no meu ombro e me pediria pra voltar... Ia por ali por aquela rua de ir, que em certa altura ainda poderia ser a rua de um resgate. Porta batida, virá Laura atrás de mim? Cada passo me encaminhava mais ainda pro "nada valho!", aumentando a distância de ti e as impossibilidades de minhas fantasias. E as ideias tantas numa verdadeira algaravia! Pensava também que você não viria, tardava um próximo passo de ir, mas meu orgulho tornava a pisar adiante. Quiçá eu parecesse um bêbado pra quem via. Transeuntes outros, que me causassem algum pejo de existir, havia? Não sei se entrava num beco sem saída, numa rotatória, numa rodovia... Imaginei nas minhas costas você vindo, mas tive pudor, medo também, de olhar para trás e redundar uma indiferença da realidade na rua vazia. Esperava só o peso de sua mão morna em meu ombro. Ah, a rua vazia... Terei olhado e visto ou só com ouvidos na ausência dos seus passos percebia? Esta indiferença que na vida eu tão bem conhecia! Desde mais moço, quando, "praia programada", chovia! Tanto imaginei, que deixe pouca possibilidade para as surpresas. Tudo eu previa naqueles meus passos sem destino. Inventava coisas além do abandono que cada vez mais se estabelecia. De maneira que qualquer coisa que acontecesse arrancaria de mim: "Eu já sabia!" Ah, Laura, a solidão, um pouco, nos acrescenta uma quase onisciência inútil à alegria: a consciência dolorosa das possibilidades que não acontecem.

O VELHO BRINQUEDO

que será feito de mim? eu que fico. que sou fácil. se as pessoas amam com a imaginação e estou presente a ponto de já não as deixar me imaginar? houve pessoas que esboçaram me amar, mas eu fiquei à disposição e com isto fui esquecido como um irmão que se torna um empecilho na disputa por algum brinquedo, aliás, melhor, tornei-me o brinquedo que foi ganho - quando mesmo? num natal? num aniversário? - anos atrás e agora está esquecido num canto apesar da sirene ligada clamando que brinquem comigo. fui virando irmão, fui virando segurança e já não era delas a liberdade, deram com um quintal e divertem-se entre si rolando uma bola nova enquanto envelheço num canto suscitando sonhos antigos, descartados, esquecidos. parece que só prometo coisas que as estacionariam e elas precisam seguir adiante, ainda que insatisfeitas vez ou outra, ainda que colhendo tristezas no caminho. mas, é claro que não posso ser tudo! até mesmo porque me devorariam quando tivessem fome. ah, mas é duro apitar ainda, e nem digo que não convenço, tenho muitas verdades a dar, o que acontece é que já não seduzo! as verdades são tantas vezes enfadonhas, cruéis, intragáveis. para suportar as verdades que encontro, invento uma arte de moldura que as faça, senão belas, menos feias. ah, mais vale recolher-me, economizar as pilhas de minha monotonia. não dou muito espaço para que me imaginem. brinquedo de donos esquecidos, às vezes ainda tropeçam em mim, de forma que me tenho encontrado como um empecilho! será que há por aí, alguns que pensam me amar ao amarem o que pensam de mim? importo-me com o que é feito de mim? há circunstâncias! e elas não me configuram este sujeito ou objeto sempre! ah, o brinquedo que fui, antigo, já puseram no lixo! acho que o que dói nos ímpares, ex-pares, é ficarem sozinhos no presente. a separação é uma espécie de ensaio da morte, ela nos diz que de ali em diante só podemos ser o enfado, a tristeza do outro, a saudade. nunca mais o prazer!

Nota.

 não julgar moralmente o sistema, o julgamento moral pertence ao sistema.

terça-feira, 1 de novembro de 2016

- Os mais ambiciosos se põem do lado dos derrotados.

HOMEM SIMPLES

- A gente só precisa de um pouco de verdade, moço Deus, para saber quão mais belas são as nossas mentiras!
será que conheço uma história de dois humanos que partiram em busca da verdade e acabaram se matando antes do fim? será que conheço uma história em que outros dois partiram em busca da beleza e se abraçaram no fim? eu não lembro direito! não sei se conheço... eu tenho de escolher em qual acreditar?
Quando Laura foi amada a primeira vez, é que ela descobriu ter espírito. Aquelas coisas que ela ouvia declamadas por seu amante pareciam tão mais belas do que ela mesma ante ela nua ante o espelho, que Laura começou a querer sair de si e se transformar naqueles significados. É! É assim que ela vai acabar morrendo!

tenho a impressão de que...

...quando Deus escreveu "david e golias", Ele se esqueceu de dizer que era uma obra para os pequenos.

venci várias derrotas. coisa que os invictos perderam.

EM CERTA ALTURA DO CAMINHO DESERTO

a moça disse assim:

- mas será a realidade isto?

eu respondi:

- mas também, o que que a gente tá fazendo atrás da verdade? vamos atrás da beleza que o caminho fica mais bonito!

- a verdade me promete um grande poder.

e eu disse com sinceridade, dando meia volta:

- então vai, feia!

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

não tenho a menor pena de mim. quanto a você, sinta-se à vontade.

AMANHÃ É MUITO LONGE

pode ser pequena, mas fabrico minha própria alegria. dão-me demasiada injustiça? torno-me um deus. aceito a alegria do meu bicho. fala muito em injustiça quem acredita em promessas ou que o mundo lhe deve algo. supõe-me tão imbecil aquele que me promete uma felicidade que ele está vendendo, que o considero ingênuo e acho graça. não me apraz correr atrás da alegria ofertada nos comerciais, os comerciais não são para mim, tenho orgulho de colher, de encontrar... muito mais do que sou grato por me terem ofertado. gosto daquela alegria logo ali, num copo de água. gosto do sol, gosto das flores, sobretudo em copas altas. deito-me num banco sob elas e tenho um céu bordado de cores. as alegrias grandes em forma de moças de revista, as tecnologias de última ponta não são para mim um ponto de onde começarei a viver melhor. amanhã é muito longe para reconhecer como felicidade a minha saúde de agora.

é tão difícil ser quem somos, que devíamos nos sentir realizados só por consegui-lo.

para Darlin  Muller

FELIZES PARA ABACAXI!



É um tanto complicada a história do sacolão. Escolhia frutas. Bananas, maçãs. As bananas estavam apodrecendo. As maças; gosto das durinhas. Mal maduras.
"Eu daria minha vida por uma sacola maior e você, menina. Eu te amo. Vamos com as frutas?". Cartei milha melhor cantada, "seremos felizes para abacaxi!" A princípio, fez pouco alho de mim. Mas ao cruzarmos o caixa teve ciúmes moranguinhos d’eu numa caixa tão bonita.
Eu sabia que poderia apaixoná-la ouvindo "Habanera", porém os CDS estavam todos numa mistureba dos diabos. Liguei a máquina de lavar e nos abraçamos gostosinhos no frio da uva. Julho.
Domingos, calçávamos frouxos chinelos de dedo e ,ó!, beira do córrego. Lá tiritávamos, tirava os chinelos e pés nas pedras geladas no fundo da corrente.
Era um mago quando as couves enverdeceram e o CD dos tenores sobre a mesa tosca de madeira. Uma imagem de Santa Maria rogava olhos miúdos por nós pecadores? Olhávamos saudades em fotografias: julho suspirava-nos. Amenos feito brisa e folhas.
Ganidos no quintal: chegou coelho, nosso cão branco. Comia tortas e o que comíamos. Corria atrás das crianças brincando. Depois que vi que era engraçadamente torto e o rabo como lhe pesava às vezes.
Belo dia chego em casa, as luzes apagadas, ela chorando mil cebolas. Um feijão bafejava quase toda a rua. Ela ouvia "Habanera". Pensei, "mexerica dos “tumatis”!".
E nos reapaixonamos edredons e fronhas frescas melancias que era tempo. Fresca de orvalhos ela me esperava branca espontânea nuvem.
Os lençóis- rosas esmaecidos -, não sei como posso tê-los reminiscências d’ontem tão ontem mesmo; e tudo era claro. Ela discreta de mil sussurros coniventes.

Limões que C vitaminem!

vistia-se bem para que quisessem despi-lo!

esta coisa de procurar o profundo me parece tantas vezes mais não querer ver o real. que temos a ver com "o que as coisas são", esta tentativa não se satisfaz com o que aparece.

não sinto falta de minha juventude, talvez saudade de ter pouco passado.

ENTRE NÓS

Para nos relacionarmos, por natureza, colocamos algo entre nós. Relacionamo-nos com copos entre nós, com Deus entre nós, com uma música entre nós, relacionamo-nos até com outras pessoas entre nós. Os objetos de interesse comum são nossa sintonia. Quando nos relacionamos diretamente um com outro, gozamos, às vezes até nos reproduzimos; isto é, se esta relação direta com outro não é um modo de interagir com um terceiro.

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

ESGOTAMENTO

De repente, tudo é sobra. Monotonia. Enfado. É preciso mais do que qualquer coisa esquecer. Entra-se em desespero! Sigo passarinhos enquanto o necessário passa do ponto de cozimento. Preciso crer de repente num deus que invento apenas para que ouça meus gritos que outros não suportariam. Peço-lhe: Deus Todo Poderoso, construa paredes em torno do que lembro, pois quero que o mundo possa ser uma novidade e já não aguento mais apertar no agora tantos passados. Em troca disso eu prometo, Meu Deus, nunca mais fazer sínteses! Deixar as coisas como são, injustas, incompreensíveis. Quiçá, meu Deus, possa eu também, muito a seu agrado, não questionar mais nada! Pinte o céu de cores variadas, faça dele um pijama tropicalista, danem-se os epiléticos!" Falo com este Deus e escrevo para que você tenha sossego, meu amigo! Sou vasto, intenso e interminável... Estou a vida inteira numa mesma brincadeira. O pique está comigo e corro atrás de uma sensação que está do outro lado da mesa. Ela me atrapalha com as cadeiras! Damos voltas e voltas, às vezes paro e talvez consiga enganá-la. Pique com ela, ponho-me a correr até esquecer por que corria, e quando aquela alegria encosta de leve os dedos em mim em pleno trânsito, quem me pega é o tédio das ruas serem tão parecidas. O fato é o descompasso! Dentes cerrados, piso em cada passo esta afobação contida em nome de uma normalidade de fácil acesso: Venha agora meu amigo, entre! Mas, espere, já não tenho mais nada a lhe dizer! 

a dor de alguém.






como é difícil ser alguém!

ver o sol se pôr e se dispor ao tempo.




olha a despreocupação do alvo

no seu centro mesquinho

e a mão trêmula do arqueiro!




é mesmo triste ser alguém

em lugar de fumaça que sobe

sem se angustiar

ou pretender arte da sorte

ou temer qualquer mistura

sem zelo avaro pela forma

sem vontade que de com a cara no acaso.




ai! alguém entre construções,

à procura, permeando ruas, becos e vielas

sob o julgo de olhos, ouvidos e narizes.

sentidos vigias de mãe e de cães famintos.




olha a indiferença da garrafa

nas borbulhas que solta afogada!




como é duro ser alguém

e ter o hálito horrendo dos dias que amanhecem

postar sorrisos e cumprimentos fatídicos a alguns

indecente, remetê-los vazios de intenção.




é duro demais!




atravessar intacto críticas e trânsitos

dos que também atravessam na transversal

carregando crenças até das descrenças.




ah! vê o líquido

- cicuta ou elixir -

e o recipiente impassível ao gole.




ah! vê o descaso do crivo:

à bala perdida que venha parede

ou a carne de uma infância.




ah! vê a poesia sem ânsia de ser lida

como o livro é aos olhos que permeiam:

indiferente à página que atingem.




ai, que duro então não é ser gente:

angustiar-se na consciência da morte!




ser gente de negócio então...

programar montantes

borrando o papel com a tinta da vida

de enfileirar algarismos.




amargo! até que nos fechem em féretro

e o primeiro verme nos promova a algo.

o primeiro furo sem dor, sem pose,

sem contrações de carne, sem pudores sapiens.




sem alvoradas

não abusa mais de nós o amor:

tenor do canto dessa majestade

subjugando-nos a ninharia.




olha essa coisa corriqueira:

"a moça na janela

enquanto ela aguarda

o príncipe pelas vias atrás dela

à janela carcomida tanto faz

se ou se não por seu vão algo acontece.







aaah! que faz o remorso dos seres de atitude,

os pensamentos, as culpas...?




como é pecaminoso e doloroso ser alguém

invés de algo.

sujeito "engano" objeto.

"encontrar um sentido para vida"  partem à procura, quando esteja tão claro de que se trata antes de "inventar algo em que se possa acreditar. o que implica que "o sentido" dependeria antes de um "dom de iludir-se", "enganar-se", de "poder acreditar naquilo" do que de "desvendar uma verdade". os profissionais tendem a fazer de suas profissões, para melhor aceitá-las como destino, as mais importantes do mundo, há anedotas a este respeito! não nos percamos, se me dizem "encontrar", o hálito é de quem acredita que a Verdade vai salvá-lo, que há algo encoberto que precisa ser desvelado e que é a cegueira que nos impede alguma perfeição, definição. mas não seria exatamente uma "ilusão verossímil", quiçá uma "falsa descoberta" como as religiosas, o que nos possa tornar salutares, o que nos poderá dar um sentido para a  vida?

QUAL O GRAU?

a decisão quer se igualar à morte, no sentido de ser definitiva? as coisas que inventamos como brinquedos, consolos etc. em quais provisoriamente acreditamos e investimos... independente de seu sucesso ou não (que seria o sucesso?), digo, independente do prazer que nos devolvem aqui e ali em seu curso, não nos fere por não ser definitiva? e depois novamente, novas indefinições. até a entrega completa à indefinição, até a dúvida quanto a si mesmo, até o ignorar os impulsos...e o que não são impulsos? ou entregar-se de vez a descontinuidade protagonizada pelos acasos, pelos estímulos mínimos de fora que nos fazem lembrar isto ou aquilo, que nos levam assim para lá e para cá sem grandes razões identificadas, enfim, viver dia-a-dia como um Caiero, sem ousar erguer mais nenhum propósito com a janela dos fundos voltadas para tantos intentos evaporados. por outro lado, seguir sempre um caminho, uma linha, não seria triste, limitador? 35 anos de trabalho, 44 horas semanais de prudência atrás da pirâmide da aposentadoria? os professores sempre a repetir, semestre após semestre a mesma essencial "ladainha". alunos saindo das salas como salsichas de "the wall"? a produção em série... as bandas tocando um mesmo repertório eternamente, mudando apenas de plateias, cidades construídas segundo um modelo funcional, parecidas... os programas de tv com situações armadas as mesmas para que se possa produzir a comédia semanalmente numa linguagem mediana que deve se pôr ao alcance de todos e qualquer um... indo em frente, o quanto nos fere a continuidade e o quanto nos fere a descontinuidade? qual o grau de equilíbrio? estendamos as questões: o quanto nos fere a semelhança com os outros, dizendo que somos apenas "mais um" e "qualquer um"? o quanto nos fere a diferença de todos, gritando que estamos sós? num átimo, tenho a impressão de que isto é tudo, de que o resto são repetições. progressões? mínimas, enfiadas em extensas redundâncias, se tanto! lentíssimas progressões, contrastando com nossas vontades efêmeras! talvez a angústia na espera por duração provenha da consciência de que só vivemos o instante. e a angústia na espera por novidade ou originalidade se daria ante o "ciclo" das repetições, dos costumes, hábitos que são caracteres presentes e essenciais do que se pretende constante. o terror do "duradouro" desejado é ter de repetir eternamente o rito que o cultiva. qual é o seu grau disto e daquilo?

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

O VAZAMENTO

nem só por estar sozinho posso escrever. há um jeito de avaliar, um certo critério do meu gosto que recusa "qualquer coisa". então eu penso na rua. não acho que fazer na rua sem necessidades. não quero ir ao mercado. desisto de pensar a rua. fico em casa, sem nenhuma vontade forte. preciso escrever um livro para jogar nele o que há de alma e ser depois só um corpo, ou seja, pouco a perder para a morte. pego o violão, toco meia canção e resta a obrigação de mais cedo ou mais tarde ter de guardá-lo novamente. não há notas e nem palavras que dizer. não há nada que queira desenhar! rabisco assim o papel. bebo um copo de água. amigos? não tenho amigos. uma época fui desagradavelmente sincero! terá sido isto? não! para nós não interessa se foi uma época apenas, um período, uma fase. não tenho amigos porque me mudei. e eles também haviam se mudado. amigos só se pode ter com condescendência do acaso. "amigos" são interpretações favoráveis! e se os tivesse, seria justo lhes entregar esta falta de objetivos? amigos foram se afunilando. larguei minha velha cidade e eles por lá ficaram e se os trouxe foi na ideia. há um que me faça um grande favor importante, algo que minhas mãos não alcançam. devo-lhe talvez o que? ouvidos? dinheiro não pode ser! paga-me ele alguma dívida afetiva? olha-se num espelho e se vê um grande generoso? precisa ver em si um homem bom, como tanto eu preciso e quero deixar de precisar? somente porque me faz um favor, não posso amá-lo para sempre! tampouco continuar amando. esta coisa de amar... reticências sempre! dúvidas sempre! mergulhos em agonias! estamos longe, esgotados os favores possíveis, migramos para um mútuo esquecimento a ser quebrado ocasionalmente na lembrança qualquer de um nome comum ao nosso ou por uma fisionomia que dobrou uma esquina.  um flash de herança da amizade, quem sabe se a causar-nos um sorriso ou menos! por tédio penso em cuidar da saúde. alguma coisa, nesta sensibilidade, me faz sentir as vísceras com alguma suspeita. serão as minhas vísceras ou serei eu delas? fico com o popular: "ninguém é de ninguém!".  "mente vazia oficina do diabo!", é a voz da vizinha 30 anos atrás. vizinha antiga, velha, quando eu era menino no meio da vila. tenho tempo suficiente para isto de me ver num calção largo, os pés descalços, costelas à mostra, e a velha na porta da casa, um vestido que se pinta de branco estampado com flores azuis e vai até os tornozelos, deixando-me ver sandálias de dedo. ela emoldurada de plantas. ela no umbral parada, sentiria o que sinto no fundo no fundo 30 anos depois? que queria velha, além de mexer com as vidas que passam? não, ela teria dito era: "quem fala sozinho conversa com o diabo!" -  "trabalha, diabo! trabalha!", penso. mas a mania de ir falando sozinho transviou-se para a escrita. quase não me flagro falando sozinho, fiquei silencioso, aceitando o barulho das coisas que se ajustam. tornei-me quieto e mental, de maneira que o filtro da casa a gotejar na garrafa de vidro parece ter mais angústias que eu. respondo hoje: tome, diabo! só você mesmo, para aguentar tanto lixo emocional, para merecer estes nadas alheios! gostaria de escrever, mas não há que consertar em mim, está tudo perfeito. sou quase uma aurea mediocritas nesta desnecessidade? sou quase? quase parece estar certo para tudo. tudo vou esgotando. os desejos são sempre kamikazes. que posso suspirar? é importante que haja um suspiro, que de nós é um resfolegar e do desejo é um grito abafado: "ah, se eu tivesse nascido em copacabana!" - o que que tem? teria dinheiro? teriam me achado? não teriam me importunado? e a beleza das estrelas é um clichê fora do céu, e a beleza do mar é um clichê na praia das letras. as estrelas, o mar... vísceras de deus? nesses momentos de transe proporcionado pela inutilidade completa, um copo de água é esquecido lá fora. e isto é um fim suficiente. a água encontra algo em mim.

terça-feira, 18 de outubro de 2016

as pessoas mais bonitas são as capazes de solidão.

DELICADAS: almas muito cultivadas, almas que dependem muito de cultivo. na selva não vingam. murcham. encolhem-se. não possuem a crueldade necessária para entregar ao outro. e mesmo com esta ideia já se assustam.

sou um homem construindo um ninho. não me entendem os pássaros em revoada. eu que para cá voei, cada alma que encontro, tento com ela construir um país. quero ir fundo, embrenhar-me. será a carência o primeiro impulso psicológico?

Almas belicosas

Há almas que se tentam fazer e encontrar como opostas a outras. Se elevam em contrapor as demais, sejam amigos, namoradas, irmãos... Arregalam os olhos para lhes encontrar algo condenável. Para achar no outro um mal, aguçam os sentidos, provocam se detendo em pequenos gestos ou pequenas palavras de um largo contexto, ainda que estas palavras sejam algo como um apêndice inútil ao fluxo principal de um discurso. Parecem almas que enxergam o mundo e a vida como uma tirania absoluta, a tirania de um Deus, tamanha, que já não podem escapar, e então querem se tornar elas mesmas almas tiranas, para que levantam a voz, e de cada conversa querem erguer a bandeira de uma superioridade. De maneira que assim as demais almas lhes parecem fazer o mesmo quando isto ou aquilo observam em sua postura. É difícil, senão impossível, ter com tais tipos uma amizade que se aproxime em sinceridade. Sua competitividade constante pela posse de uma verdade repele aqueles que compreendem que em tantas questões há apenas pontos de vista.

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

tento não remedar estilos ao remediar silêncios

MIRAGEM


onde a gente faz falta é miragem
“amor” eu não sei

tenha engolido no choro

no soluço

e o amor não se evacua

não se pode algo cuspido

ficou aqui dentro prisioneiro

não sei

me roendo




de que se abstrai?




vi palavras em closes

bocas carnudas

mil tesões me escalaram

cálices que brindam

vi lençóis e filhos

lágrimas me fugiram

e me comovi de não achar o amor

e talvez fosse amor isto

nem sob nem sobre a cama

de todos os dias e noites

e todos os corpos úmidos oferecidos




lambi as angústias

tateei fios

cortantes

as literaturas

mas não achava

e sacrifícios e ouvi alardearem

“desnorteia e norteia as vidas”

“amor”, o que era?




enxuguei lagos de romantismo

e devo admitir torácico e estomacal

no vão que deixa a alma que me falta:

“amor” não sei




ocorreu-me inventá-lo

por amor?

ocorreu-me versá-lo

chegaram mesmo a concordar comigo

nessas tecnologias




amor

de que se abstrai?

uma vontade louca da existência do que se ausenta

nem do cume febril “amor” não sei




foi plenamente ignorante do que seja o amor

que menti e disse que amava e que sabia o que era

era vontade de tê-lo tão convicto

feito adolescente o ressoa firme

e trêmulo a que lhe acreditem

era necessidade de me achar generoso amando

me perdoem: eu não sei e não sabia

não peço desculpa de que tenha me esquecido




chamei de amor as frustrações maiores

ou os casos mais intensos que tive

ora! foram mais intensos os mais frustrantes

e fui assim os vestindo nobremente

“amor”




mas “amor” não sei

sou incompetente!




é que sempre precisei dizer que o sabia

para não passar de ridículo

e para que por amor não me odiassem

mas não sei

confesso desertor da farsa




sim! abracei minha mãe

fui de beijos e de pegar em mãos

e agora penso

vendo quão ignorante sou e me resta ser

que dissimulava

chorei meu pai morto

e tudo aquilo até parecesse "amor"

mas eu não sabia




feito um macaco faria

capaz que amei e não sei

e diferente do macaco que só amaria ou não

despreocupado

eu nunca saiba

porque não sou nisso de amor de sabedoria




sei que caravelas chegaram ao brasil

que existiram dinossauros

mas se amei foi sem saber o que fazia

sem poder pensar duas vezes antes

completamente ignorante




não é verdade

meus amores

é só necessidade de dizer

eu nem sei se sei ou se não sei

ou se acertei no amor esta flecha de entusiasmo e agonia

se acertei no amor tudo que sou e não sei

e em tudo que o neguei espero ter errado


a verdade não precisa de crentes

em convívio:

com tudo que é ruim se acostuma;
com tudo que é bom se enjoa.
ela quase chora dizendo:
- você mente?
- mas não é indecente este tom que você emprega ao dizer? não será mentira essa sua pergunta que, me parece, não quer saber?

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

no caminho

não tema, juventude, ter mais da metade da vida, é uma coisa incerta. somos mais lentos que os rapazes de trinta, e mais ainda que os de dezoito, porque carregamos mais lembranças, eu, ao menos, olho mais para trás. do contrário, como é ligeira a criança que só tem pra frente a seguir, que metabolismo! e quando se chega aos quarenta,  nossa visão muda. a morte é algo interessante sob diversos aspectos. continuar para sempre se sugere já uma ideia pouco sedutora, aliás, enfadonha. ainda vivemos, para coisas mais simples, menos duradouras... mas com que sabemos interagir com nossa madura sensibilidade, a ponto de as tomarmos com a intensidade adequada, aquela que sustenta de pé nossos dias. não tema, jovem! tenho vontade de bater num religioso que me fale da eternidade da vida. acaso se chegue aos quarenta e ainda se prossiga, tudo é grandioso. a sensação que tenho é de que a gente, se for sensato, vai se desgarrando da vida como uma grande promessa, e vai com isto entrando mais nela, no presente, e tem gente que até nasce muito depois da juventude para vários mundos que ignorava. e continuam havendo flores mais importantes que as de um caixão, surgem até flores mais importantes que a riqueza. o importante é ser fértil em fertilidades.

SIMPLES

a ideia de ter é a que propicia melhor a sensação de perder.

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

Platão jogou lama em nós!

ANTIBIÓTICO

Sofra na noite fria debaixo das cobertas, bem quentinha! Sofra amanhã bem cedo, um cheiro de café pela casa, um pão francês fumegando, sofra na hora da mordida! Passe depois a mão na cabeça do seu cão e sofra quando ele apertar os olhos de gratidão, neste exato instante, concomitante às pupilas!Veja também se você pode sentir mais frio simultaneamente com esta dor: dispa-se, tome um banho gelado e veja, enquanto a água cai sobre seu corpo, se a dor ainda existe. Descubra por fim o habitat da dor, os confortos em que ela se deita, os limites em que ela lança sua urina fétida, olhe agora de um monte de sua alma o território seu que a dor conquistou. Não  entregue para ela mais nada, reduza a circunscrição, vá tomando da posse dela, aos poucos, as possibilidades que ela lhe impede.

terça-feira, 11 de outubro de 2016

e se eu nascesse em Paris. eu acho que nunca iria me dar conta de ser um parisiense. sou um tanto etnocentrista, depois de egocêntrico. eu acho que em Paris não se saberia olhar para lá como se olha do Brasil, na verdade o que vale é o meu olhar. se eu nascesse em Paris, por cargas vejo um pão de baixo do meu braço e levo na cabeça o nome de um padeiro conhecido... não! aí seria Itália! se eu tivesse nascido no Brasil... mas não foi mesmo neste país que eu nasci? olha bem pro meu nariz! se eu nasci aqui, sou apenas este homem sentado, corpo todo paralítico, escrevendo sem muita esperança. se eu nascesse e morasse em Paris, olhando-me nascendo aqui no Brasil, diria de lá que este que nasci aqui nasceu pra jogar capoeira!
escrever é uma espécie de ordem, disposição que inveja um deus. aquilo que se saiba seja muito pouco! demoramos muito tempo para saber, subimos muito alto ou cavoucamos demais para o fundo. muita terra jogada fora, restara talvez uma pepita que nos chame a atenção. o saber fica ali, no cume de um monte de esquecimento. de todos nossos atos do dia, poucos são frutos da sabedoria. dançamos conforme os buracos. escrever é uma espécie de arranjar-se. de terapia. é um jeito de lidar com tanta sujeira ideal.demorei muito tempo, tive de subir monturos, para cravar a bandeira nisto. escrever é uma espécie de ordem, não para quem procura, mas para quem se encontra perdido.

se a gente é de ferro

o que nos é mais magnético, eis o amor.

PROFESSORES DO GOSTO

Como que uma antipatia nos redesenha um corpo! Como de relance, por uma agressão que nos cometa um julgamento, uma figura começa a condizer com o que há de ofensivo! Uma simples noite em que ouvimos desaforos de uma pessoa qualquer é capaz de nos provocar pesadelos e nos tornar incapazes de ainda separar no agressor o que há de infame e admirável, incapazes de entender o momento do outro como atenuante num primeiro instante. Como, num segundo e terceiro instante, em que nos encontramos mais serenos, ele, corpo e alma, ainda está atrelado ao grosseiro! Como antipatizamos então com a distância da orelha ao queixo, da cor de pele, da cor de cabelo, da extensão de uma boca, do contorno dos lábios, do sorriso, do caminhar, das roupas últimas em que o lembramos, dos seus assuntos prediletos! Como queremos nos afastar do alcance de suas mãos, como distar dele se torna nosso prazer... Ele agora é reinterpretado por nossa sisudez, nosso rigor e impaciência. Se havia um traço dele que poderíamos julgar feio, algo que a amizade ou um bom afeto insistia em ignorar ou mesmo atribuir graça de originalidade, o traço então nos apareça torto e indesculpável, tudo nele se perde, tudo se torna grotesco. O defeito no agressor se torna um merecimento, e um mal de que padeça nos evoca a gritar “Justiça!”. De maneira que, nossos agressores, ou nossos inimigos, ou adversários têm o poder de moldar o nosso gosto. Nossa definição do que é belo é o que ele não alcança, nossa definição do que é feio é o que se lhe assemelha. Assim também nossos mais queridos nos ensinem o que é beleza. 

terça-feira, 4 de outubro de 2016

por que escrevo?

retirando minha obra, sou extremamente desnecessário. erguida minha obra, torno-me apenas inútil.
o estalido. o "smack" onomatopeia do beijo é quase que da luz que poderia clarear um mundo, permitir meu avanço passo a passo, um relâmpago. um piscar de olhos. uma mágica de dizer "estou indo nessa! você não é tudo!". um prêmio de consolação. um eufemismo de "contigo não deitarei!". 

moça, sou um homem velho.não tenho 40 anos só de vida. tenho 40 anos de olhos. pense nisto. veja isto se puder. muitas coisas ouvi estalarem. e somente quando criança comprava caixas e caixas disso. hoje eu preciso de mais. não me venha com "smack!" ou me vingo com "beijo pra você também!" 

amigo dos amantes

por vezes olho para os amantes - com verves exaltadas, embriagados de paixão - com admiração. sou feliz pela felicidade deles, que é uma felicidade possível do mundo, que é o sorriso do outro, um significado de forma de paz e entendimento humano. sei que um homem saciado é menos nocivo. mas vendo-os assim, do chão, tão tãos... não tenho a menor vontade de entrar na fila da montanha russa em que vão.

meu primeiro mandamento

tenho por hábito ou vício sentir-me bem com quem se sente bem comigo.

deus é tão generoso com aqueles que falam por ele, como padres ou pastores! nisto eles ganham em verve verossímil: "graças a deus!" - é como se dissessem: "graças a deus vocês todos se reúnem para prestar atenção em mim, porta-voz de deus, levam-me a sério, posso influenciá-los, aumento meu poder". isto! levem-me como coisa mais séria e importante! quando digo o primeiro mandamento não é orgiástico? "amar a deus acima de todas as coisas". sei então que eles voltam é para o meu terreno: a casa de deus, pois só assim o amarão acima de tudo. e ainda disfarço minha pretensão falando em nome de outro, falando tudo que quero. não é isto que Ele quer?

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

ei, cara, continue tentando a beleza. achando a beleza sua. não diga que ninguém está vendo. não faça pouco assim de você.

o senhor pode dizer, já que é um senhor, que o que digo é muito estreito, mas o que eu digo de fato é muito pouco sobre mim. é preciso deixar de crer que falam bem de nós estes formulários.
às vezes as pessoas por quais eu mais me interesso, eu delas rápido me despeço. porque são as pessoas que mais me podem trazer alguma decepção. eu acho que sou assim, meio covarde, sabe? a vida é tão louca. nossos hábitos às vezes são tão contrários aos nossos desejos. quase como uma estratégia pra enganar um deus sádico.

um sujeito bom mesmo?

é aquele que sabe que o mundo não lhe deve nada.
sobre a casa pequena você tem que falar no primeiro dia em que você sai da casa grande. a casa pequena quase que só cabe o que tem em nossas almas. o quanto de espaço amplia uma sala, o nosso amor? e o quanto um mesmo afeto a diminui? uma casa pequena é cheia de coisas quando em contraste com uma casa grande, ou seja, quando se sabe o que é uma casa pequena. uma casa pequena é fumar um cigarro beirando a chuva  porque sua mãe de 1933, na sala, não aceita o seu vício de apenas vinte três anos de idade. uma casa pequena, se tiver jardim, é só um vaso procurando o ângulo de luz de uma janela. mas a casa pequena mesmo é aquela em que só cabe a gente. a maior casa em que morei era a casa em que se esperava meu pai voltar do trabalho. a casa mais triste é grande como um deserto em que não há quem entenda sua vida como uma poesia. mas isto é só a voz de uma nostalgia. e a vida é muito mais do que sentir falta.
a vida é feita só de preconceito. tudo que é dito. isto! as palavras. mas a questão é que para tudo há graus aceitos ou não. um homem não vive a 1.000.000 e nem a 0. é preciso achar na corda bambíssima que é existir o seu peso, no seu pé, saber muito antes do que em sua cabeça, quem você é.

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

a guerra da manteiga

a guerra mais importante para mim para a história do mundo é a guerra da manteiga. a minha esposa põe a manteiga na geladeira. diz que fica rançosa. acho que uma vez teve uma que ficou assim antes de acabar. a minha mãe sabe que a manteiga fica dura. o pote está na geladeira. o pote está sobre a pia. o pote está na geladeira. o pote está sobre a pia. o pote está na geladeira. a guerra mais importante.
é muito difícil, muito raro, que alguém consiga enxergar boas qualidades numa pessoa próxima se estas boas qualidades não são as de convívio. alguém capaz dessa raridade de compreensão estaria entre as melhores pessoas para se conviver.

se as pessoas me pedem uma coisa eu penso que elas querem mais e dou mais. Se elas me devem algo sabe deus o que há com elas!

terça-feira, 27 de setembro de 2016

há aquelas vezes em que o raciocínio nos apresenta uma clara posição a ser alcançada. o problema é que nossos braços não são tão longos como nosso raciocínio. nossos braços são antes morais que racionais. são mais agentes os homens de braços longos e raciocínio curto.

As pessoas se decepcionam com outras pessoas sempre, porque esperam muito delas e orçam-se merecedoras. Daí infere-se que poucos ou mesmo nenhum ato desses "personagens" é espontâneo, eles atuam para fomentar seu merecimento.

para diminuir a crueldade é preciso retirar prazer de uma das pontas do chicote.

sou um homem jungido nas horas, vou arrastando-as, nem sempre por gosto, às vezes por receio do chicote... e sempre girando com pernas de ponteiro, machucando meus pés nesses números. giro, um boi, o engenho louco de me vingar com açúcar. vingar-me dessas horas circulares e... concomitantes: sinto no cálcio dos risos o sal do suor e da lágrima. a necessidade arranca da folga os dentes de rir para que mastiguem. por necessidade, indistinguíveis, engulo tudo... suor, sangue, riso: produtos acabados, desembalados. quase ouroboros, engulo esse tanto de agora cumulado de antes e doravantes.

a revolta contra uma mentira não representa necessariamente a luta por uma verdade.

a maioria das pessoas é irritada. o irritado tem mais chance de sucesso.

este horror que vejo nos outros, também sou eu.

não é que pessoas com cheiro de livro me agradam mais. é que a tv não tem cheiro.

há escritores que melhoram na escrita se têm pouco tempo e espaço para realizá-la. atrapalha-os um longo espaço de tempo. eles perdem os objetivos, se perdem do caminho, perdem um ritmo, acabam adicionando mais vozes ou tornando tudo muito explicadinho, corrigem "erros" favoráveis e quando chegam ao fim esse já não é tanto o fim que pretendiam e "sim" o ponto final do esgotamento psíquico.

para nós mesmos

o pior não é ser burro. o pior é ser inteligente a ponto de às vezes se sentir burro, já que o burro mesmo não se sabe.
Ele queria matar só o filho. Matou toda família por piedade.

Será que meu assassino poderia ser mais injusto comigo que eu mesmo? Ele teria de ser mais lento e cruel que um tiro na nuca.

Acabo de ligar o celular na tomada para carregar como fosse uma vida, essas tecnologias, fala-se muito mal delas, tantos pensadores, que tornam a coisa quase uma verdade... Pode ser que seja! Precisamos de convívio, dizem! Evito ir às ruas porque me dou para qualquer um e muitas vezes não me devolvem. Sou um pouco doente. Um cristão quase de verdade. Foi assim que comecei a usar drogas, para ter as emoções que não podia mais retirar dos convívios, de onde só me vinham decepções. Não preciso que um psiquiatra pesquise e me dê causas, diagnósticos... não preciso de um analista que sondou menos almas que eu, que fiz de sondar almas minha vida, meu ninho. Talvez eu seja um escritor. Seria um consolo se pudesse acreditar nisso. Mas quem diz muito fácil que é um escritor, não pensa muito, e no máximo consegue ser um escritor ruim. Agora é hora de ficar sozinho, porque tudo é uma grande dúvida e as coisas bonitas não se pode ver, porque são abstratas, e talvez sejam invenções, e talvez não sejam puras e estejam impregnadas de uma merda, uma sujeira abstrata. Gostaria que algo como a amizade fosse visível, palpável, concreto como uma pedra. Então eu a entregaria a você.
Você escreve algo triste. Uma triste sentença. E aqueles que só querem ver coisas alegres ou que só querem ver coisinhas belas dizem que você é pessimista. Eles não podem suportar que a realidade seja triste. Eles não sabem o quanto você trabalhou, o quanto você se empenhou, sofreu e vivenciou para chegar a tal sentença. Porque eles só querem acreditar no que dá prazer, mais paradoxal que seja - num deus bíblico bondoso embora vingativo, no amor generoso, mas exclusivista etc. - eles o chamam de "pessimista" e nunca de "realista", por mais lógica que  sua sentença lhes pareça, por mais verificável que possa ser. E isto o deixa só e incompreendido, e isto atrasa toda uma mudança de valores que talvez nos adequasse, que nos roubasse da necessidade de hipocrisia. Mas esta é só mais uma entre outras tristezas. E você continua.

O problema com essas tecnologias de relação à distância é que reencontramos velhos amigos. E o que resta é apenas o silêncio da velhice. Sem objetos entre nós, não resta nada. Porque não nos interessamos. É por isso que os homens se encontram no bar e colocam entre si copos e mais copos de cerveja e quando não aguentam mais beber eles precisam ir embora.

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

NATURAL

por mais louco que tudo pareça no passo do progresso em que vamos, nas coisas que são ditas e aplaudidas.... tudo ainda faz o mesmo e velho sentido que fez a natureza. por mais que se contradiga o natural com a moral, ainda somos bichos. e nossa moral uma sofisticação do rosnado inibidor de um bicho.

terça-feira, 20 de setembro de 2016

é num mundo em que a honestidade está trabalhando e a corrupção está dando uma festa, que você tem que escolher o seu time!

essas músicas são mais corajosas que os pais. ela vai no cacique de ramos, ela vai na portela, pagode em xerem, pagode em irajá... foi parar no andaraí. filha sua?

eu, quase sempre disponível pra pouca utilidade, perguntei pra criatura:

- qual que é o lance no momento? suas intenções, moça? - e acrescentei na velha e boa precaução - seja clara e franca, como se cobrava dos homens antigamente.

O SUJEITO E A BURRICE

e tem aquela outra idade em qual não morrer daqui a pouco é sempre burrice, até que a morte os separe.

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

O PÃO COM QUE SE VÃO

abro a porta aqui. é preciso entre "erres" abrir a porta barulhenta. entre letras somente. apenas no mundo aqui, neste vácuo. o sentido coçando o sentido dos outros. do lado de fora - onde há carnes e dentes - estou perdido. abro a porta. caio no branco. sangro. suicido. é preciso não sair do papel. não perder o personagem. não deixá-lo pular da fantasia à realidade e atirar um ator pela janela.

sou tomado por uma angústia e quero dizer que está tudo acabado com 40 anos de idade. ah porra! muitos cigarros e bebida. sobretudo os amigos idos. acabei com uma piscina no quintal, dois livros na estante que às vezes me aborrecem. terá sido falta de cuidado? só posso ser assim. eu jamais pensaria no luxo de ter um abajur. parece-me tão antigo, quando as coisas que usávamos não se auto-iluminavam!

súbito, como tudo que se perde rapidamente de um contexto, vejo bruno, negro, gordo, deitado comigo na varanda. e meus pais abrem o portão. vejo o mundo inteiro abrir o portão. como entender, sendo entender apenas uma das partes dela, a economia de minha alma? não lembro direito do meu pai. minha mãe está no quarto. e é 12/09/2016. longe demais para que isto se torne um livro. estamos longe demais da varanda. a casa à venda.

às vezes penso em comprar um carro. quando a gente passa muito tempo sem ter uma coisa, acaba que a gente muda se a consegue. homens donos de fábricas de carros sonham em ter um amor? no meu sonho sonhariam. são 8 horas da manhã. que me fará sentir mais preciso no futuro dizer: "e onze minutos"? sobretudo agora que já são 12. para boa economia de minha alma, eu penso que eles sonham em ter um amor, contudo ainda será preciso, para equilíbrio é preciso que eu seja o dono da fábrica de amores.

eu sonho que todo o planeta foi dar na beira do mar para lançar garrafas de náufragos na esperança de um encontro.

eu costumo mentir. como farei pra me entender depois comigo mesmo, se às vezes nem sinto que estou mentindo? os amigos são aqueles que se digo que minto eles pensam sempre que minto de uma maneira mais vil do que eu estou querendo de fato dizer. é por isso que eu mentiria para menos, a respeito de minha vileza.

já trabalhei entre homens e entre mulheres. já morei entre eles e elas. a maior diferença eram os travesseiros. e que entre eles quase me esqueço do sexo. entre elas quase não lembrava de nada. eu gosto das mulheres de um jeito que elas não gostam de mim. não se trata de um amor incompreendido, se trata de qualquer "bom dia!" trocado entre sexos opostos numa esquina. ele tem uma coisa na cabeça: "ela!", que é bem capaz só tenha respondido "bom dia!". a única coisa em comum entre eles é o pão com que se vão.