terça-feira, 2 de dezembro de 2014

um inseto pousa na tela e é melhor que minha ideia, mas o inseto não aceita meu toque, minhas verdades ou minhas mentiras... por isso vão letras... baratas! o inseto é completo, penso ao esmagá-lo. é um tipo de felicidade covarde ao terminar os voos possíveis de outro. felicidade distante, mesquinha, aprendida na vida! como negar?... não é um voo humano possível? mas quem peca assim, tão superior e assemelhado a um deus? estamos sempre matando algo melhor e deixando a parca anotação do que era aquilo.

é sempre menos inocente do que se projeta aquele que diz: "por essa eu não esperava!"

pareidolia - para não se sentir sozinho, tantas vezes é preciso ver amigos em nuvens. ai daquele que já não puder este engano!

ENTRE MÁQUINAS - a minha maior arte, toda minha aptidão agora é para, complexamente, manter-me gente. é difícil da estética à psicologia! há muitas coisas para quais me repito cotidianamente. há muitos clientes para sorrisos em série. que fazer? a gente faz parte do seriado.

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

PRAIA DA LUZ

um mar negro de óleo lança ondas negras monstruosas contra a porta de madeira de uma clínica pobre. as ondas são ondas sobre ondas, espessas como se dez ondas em cada. turbulentas, cuspindo espumas, atritando na própria crista. sou atendido na última saleta à direita pela recepcionista. "ou será uma dentista?" não pergunto. minha mãe sofre de uma doença estranha, dorme a todo instante. no que entro no consultório, o primeiro ao lado direito de quem entra na clínica, ela dorme novamente. o médico é velho. e minha esposa comporta-se como um coringa numa canastra suja. mais alguns segundos e preciso segurar mamãe nos braços e de pé, despertá-la. movê-la até uma cama no recinto. ela não veio com a gente na barca. o médico faz cara de "nada me impressiona!". o mar continua jogando as ondas largas, fortes contra a porta. o mar tem uma intenção? subo para o segundo andar: casa do médico na ilha. é mais bonito que o primeiro! quero usar o banheiro. pela parede de vidro vejo nadar de lado um elefante. "o que faz ali e como o mar se fez tão claro de repente para que o veja?", não pergunto. por que de lado, de maneira a mostrar seu perfil para mim?, não questiono. "talvez ele não exista visto de cima!", não penso. já no banheiro com azulejos e pisos 1980, pequenos e esmaecidos, penso que vou peidar e acabo soltando uma pasta granulada, marrom mirrada, como se fosse a merda pálida de um gato, na cueca branca. "que faço com um short vermelho na clínica?"; "porque tivemos de pegar aquela maldita barca perigosa até este lugar com ares de quem saboreia férias?", não indago. "e quanto aterro feito para afastar o mar!", é o que exclamariam olhos de homens admirados com a civilização. "como fizeram esses barrancos de proteção? os tratores devem ter trabalhado ali quando o mar estava calmo!"; penso. "o que aconteceu com a praia da luz?", não pergunto. até o oceano agora entra por outro lado, e a rocha enorme em que subíamos para fugir da arrebentação ameaçadora sumiu, a rocha de divisa da praia da luz com o oceano! montes de areia em seu lugar. o mar é uma fera faminta, um viciado em vidas em ápice da crise de abstinência. rosna ondas encarcerado pela areia frágil! minha esposa usa o outro banheiro da casa. e eu saio a vasculhar o sobrado do médico, ando por corredores estreitos, desconfortáveis. num cômodo ele tem uma parede de gavetas. mas antes vou à cozinha, ver como aquilo tudo se sustenta! é o último cômodo, a cozinha. volto ao aposento do meio: de uma extremidade a outra, tanto horizontal como verticalmente, grandes gavetas, gavetas suficientes para vestir com fartura uma festa com cem convidados nus. estou abrindo gavetas alheias. e tenho em mãos peças de banho de minha mulher. hesito entre guardá-las ali, "como apareceram subitamente em minhas mãos?", não há esta curiosidade. removo pequenos montes de roupa dobrada. pego os biquínis molhados de minha mulher e esboço despejá-los na gaveta. acabo deixando-os sobre o móvel, que já não ocupa toda a parede no sentido vertical. pego uma camisa do médico, preta, de abotoar, mangas curtas, com pequenas estampas verdes ou azuis quase imperceptíveis. fica muito justa em mim. eis que ele aparece.

_parece com uma minha, mas a camisa é sua! - a minha expressão tenta dizer que caguei nas calças, circunstâncias que deveriam desculpar eu usar a camisa que nem me era confortável.

ele faz cara de que algo está fora da ordem. "será o médico o meu juízo, a moral?" - não pergunto.


"cadê minha mãe?", não pergunto. minha mãe deve estar dormindo. minha esposa aparece; no hall, eu, ela e o médico. ela ainda é o coringa na canastra. agora movido para o meio das demais cartas. como se um parceiro bisonho houvesse enfiado uma sequência de quatro cartas no jogo definitivamente sujo e finalmente houvesse batido, majorando o desperdício e encerrando nossa derrota,  o mar, a clínica, a moral...
chova, faça sol, subam homens em palanques, flutuem com ou sem asas e auréolas, coloquem meu pescoço sob a lâmina, viagem ainda mais longe no espaço, inventem algo superior à luz... desça um outro dos céus, ressuscite-me ou me transforme num frango... que eu me disfarce insinuando humildades e ainda que eu seja concomitantemente meu próprio diabo massacrando a mim mesmo e a minha imagem, continuarei sendo meu deus! confesse-me, serei eu meu deus... árduo, duro, doador, amável, enrugado, com ou sem glória ou adoração... não há escolha, não são necessárias manchetes de jornal, eleições... tirania total, absoluta! é comigo mesmo, e nem mesmo um púlpito para isto!

"Se os ternos morressem, quanto de falsidade restaria?" - Perguntou-me isto e, em seguida, gritou "Viva a hipocrisia!"

terça-feira, 25 de novembro de 2014

o que se remete é uma coisa de esperança difícil, restrita. em escrever se não excluem somente os analfabetos. algo se procura. algo quer se construir e quiçá virar alguém. há um processo de fazer para um leitor. é o processo do sucesso. e há um processo de construção do leitor, sem rótulos, sem gênero e para além do bem e do mal!

domingo, 23 de novembro de 2014

chove em manaus

é mesmo um mundo grande! chove em manaus. cães fecham seus olhos em carpetes felpudos... ciganas ganham a vida para auspiciar menos que isso de conforto a quem lhe dá uma mãozinha. no mar alguns homens se perdem atrás de peixes. em londres meninos caminham de fraque e em belém nem deus sabe o que acontece. chove em manaus. tempo pra ver isso tudo tem um homem do outro lado do cachimbo. varanda. mesa de mogno e um pé de jabuticaba. na casa ao lado joana vela um corpo. meninos em moçambique comemoram um gol de pelada. chove em manaus. e os homens no brasil se focam atrás dos vidros numa menina que diz "eu te amo" para outro em paris. chove em manaus. é mesmo!

domingo, 16 de novembro de 2014

imagine a costela
o em torno por dentro
como um copo
raspá-la da carne com uma espátula
até o branco dos ossos
a coluna, pense
espessa, os humores, líquidos...
como caldos de comida

a medula espinhal passeada de larvas
a esfera dos olhos recheada delas
imagine  o que imagina agora
como posse dos vermes
ditosos, donos, gordos... sem ossos
no chão
dentro de seu caixão alguns dias descido
depois de uma pontada no peito
esticada no rosto roxo
e a queda na sala sem respeito aos utensílios
a dor até o fim

como você não quis imaginar
e com muito mais medo do que quando o fez
as veias dilatadas de pânico

pense bem!
pois é isto o mais certo amanhã
que se pode imaginar:

quando nem mais ossos
muito antes
nem mais você

terça-feira, 4 de novembro de 2014

dar ao menino o gozo
cheiros e gostos que a mãe não possui
beber o amor que resta escapando de um ápice do menino

é como saber que acaba
e ter coragem por isso

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

terça-feira, 7 de outubro de 2014

se você conhece as pessoas que moram no seu prédio...
aquelas que odeiam os porteiros
outras que levam marmita
senhoras e senhores e senhoritas
poodles tosados
velhas encrenqueiras
velhotes sem-vergonha
cuecas furadas na bunda
manias variadas
se você conhecesse você mesmo
também se regurgitaria
é gente que aprendeu uma honestidade muito estreita
sainhas de escritório
calcinhas de costume
é gente muito pouca coisa
nas esquinas homenageadas
idealistas de pouca merda
gritando em meus ouvidos
enfiados em tênis da onda
já que tudo tem de entrar pelo cano

posso bem ser um filho da puta!
um desgraçado cheio de vida
e de histórias

não posso viver sem isso de homem partido
e eu não reparto com ninguém
o que não é área de serviço

domingo, 5 de outubro de 2014

e aquelas meninas, hein, parceiro? lembra a carne assada da adriana? tanguá, terra perdida. ninguém sabe de tanguá além de lá! o viaduto da br. a ruinha de terra das meninas. é, parceiro... você lembra?, agora que nem você está aqui, que a maior parte do tempo somos, um do outro, esquecimento, lembra? tornou-se insossa e inodora a carne assada da adriana!

sábado, 4 de outubro de 2014



I

é mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha
do que o homem caber no agora.


II

sobra sempre uns braços pra fora do invólucro
voltados para trás
e um nariz com pernas que inventam "pra frente"
deus se enrolou em embrulhar o homem
em seu papel de presente.

III

e
.
se
.
fizermos
.
o
.
ser
.
ser
.
mais
.
lento
.
até
.
que
.
ele
.
colida
.
com
.
o
.
momento
?
trago no peito muito obrigado
uma angústia de nada

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

ter tido um dia um cachorro
e uma menina
e ter o cachorro morrido e
a menina abanado o rabo


Hguo PARELLa, ops: hUGO pELLERA

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

e aquelas meninas, hein, parceiro? lembra a carne assada da adriana? tanguá, terra perdida. ninguém sabe de tanguá além de lá! o viaduto da br. a ruinha de terra das meninas. é, parceiro... você lembra?, agora que nem você está aqui, que a maior parte do tempo somos, um do outro, esquecimento? lembra? tornou-se insossa e inodora a carne assada da adriana!

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

ACONTECEU COM CRISTO



"criança, não mexa nisso, se não você descobre

e depois...

...quebra!



- hUGO pELLERA mELACOCCI

domingo, 21 de setembro de 2014



se a política está em tudo

não deixo de fazê-la agora




se a política está em tudo

cuidado com quem o abraça




e pergunte se isto aqui

não é corrupção!

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

AMIZADE:


_pô, Jadson, você é um cara simpático e amigo. só tem que parar de espancar sua mulher.

_ela anda saindo de casa é? deixa ela comigo!

_anda, sim, e com cada vestido, meu amigo, que parece um filme de nelson rodrigues!

(hUGO pELLERA)
Carne de Pescoço trabalhava do outro lado da rua.Era como o chamávamos, por causa do seu pescoço duro, torto pro lado, que fazia ele parecer beijinho no ombro. Carne de pescoço tinha um bar e um bigode já com fios grisalhos. Ele tinha muita graça atendendo a pedidos. Era melhor tomar cerveja no Carne!

terça-feira, 9 de setembro de 2014

LIGEIRINHO

e eu que dava descarga no angu quando você semeava o milho? eu mesmo, que desentupia a caixa de gordura enquanto você plantava a soja, neném! e na ordem do jogo do bicho eu desencarnei vaca enquanto você enfiava a cabeça no buraco, avestruz! e, respira fundo, eu já tô peidando a feijoada que você conjectura!


(hUGO pELLERA)

sábado, 6 de setembro de 2014

aquela implicância que a minha velha tinha com meu cigarro acabou fechando a porta da cozinha. a minha velha é mais que modo de dizer. é velha mesmo! (você sabe o que é "mesmo"?). a minha velha no meio de uma loucura, a vista operada de catarata, recém adoecida de ver o mundo, a doença trocada por outra, uma película, por outra película. com aqueles olhos ela achou o dinheiro de me dar para comprar o cigarro. porque eu estava louco o suficiente para pedir dinheiro a ela pra isso. ela me deu. e fomos eu e meu amigo lino, sujeito que sabe ser amigo de loucos, comprar cigarros na padaria flor da cidade. mas depois para ela eu parei. só para ela eu parei. isso deve ser amor. penso nisso fumando um cigarro, com a porta da cozinha trancada porque ela mora no quarto. ela, a minha velha. aquela implicância com meu câncer, mãe... fechou a porta da cozinha, enquanto ainda somos saudáveis, apenas pelo possível. só pelo possível. fechou. e agora eu confundo a senhora com o vento que entra pela janela e faz a porta confessar sua folga no batente (de mágoas?), origem do tempo ou de um mau serviço de carpintaria... aquela folga. como se eu escrevesse mal em lugar de mau. maus trocados, aquela folga! dois trabalhadores importantes. ambos roem as madeiras. carpintaria? ou seria marcenaria? sempre confundo esses dois. acho que o homem mais bruto é o carpinteiro. as mulheres devem gostar mais deles. as mulheres, mais desenxabidas. isso é uma prece: "como confundo, mãe, a senhora agora com o vento que sacoleja a porta. tem cabimento confundir seu toc-toc de sherlock com o manejar das brisas?" hein, vento - você que me amamentou e que antes me esperou nove meses na sua barriga, me diga, tem cabimento? não foi você, vento, que me entregou a festas juninas no externato hilmar e um dia me deu dinheiro para comprar uns cigarros? foi logo depois do vento ter sido operado de catarata. agora ele sabe! sabe muito bem! porque enxerga direitinho, apesar dos oitenta e um anos de idade! e hoje eu não sei se abro a porta ou acendo outro cigarro!

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

SEPARAÇÃO







a minha memória tem pinceladas de tristeza. como ter ficado só com a mesa. essa mania da minha lembrança. de todos os móveis que tínhamos e algumas coisas outras tecnológicas, que gelavam e aqueciam alimentos, como o DVD do Woody, por exemplo! E a voz de Angela Ro Ro!, "depois disso tudo, eu ficar só com a mesa amarela com a risca larga branca, grossa no meio!" - é de expressar indignado mesmo, sem dúvida! a mesa... só porque foi a penúltima coisa, antes da porta, que eu olhei daquela nossa casa. aliás, "nossa" eu já não vejo há muito tempo, coisa alguma que seja "nossa". eu lembro da mesa, porque foi lá que você se despiu, cheia de mãos, mãos que tinha para me acertar a cara e não usava de desleixo. aquelas mãos enfim, foi porque escreveram elas mesmas, o bilhete e, elas mesmas, depositaram, sobre a faixa branca aliás, larga. no meio da mesa. entremeando migalhas de pão que seus dedos amassaram. o bilhete. a última coisa que eu lembro. a minha lembrança tem maus costumes, manias feias. eu até não confio em mim, por conta dela. mas a mesa era amarela, ela se agarra à lembrança, a lembrança se agarra nela. amantes perfeitos invejariam de que jeito isso se dá. esses dias quase fez uma canção com duas coisas: você e a mesa. canção que se deteve só numa rima. escapou de arrebentar nas rádios, ao menos as que poderíamos sintonizar. "ela, amarela!" - era o verso latejante e miserável, arrastando-se na minha cabeça locada pelo passado. "isso ninguém me tira!" - diz a memória, que tem manias e continua dizendo, pedindo desculpas: "só não lembro, além de adeus, o que mais dizia o bilhete contrastando seu caráter tarja-preta sobre a faixa-branca da mesa amarela. depois disso tudo, "a mesa de nossos encontros matinais (é de se expressar indignado mesmo!) ser só lembrança?!" se dar a desbotar de existência. é duro, querida. aliás, "querida" é falta de upgrade no meu sistema.

segunda-feira, 28 de julho de 2014

MAJESTADE

junte todas as suas dores, físicas e anímicas... como pedras, pérolas, as que mais brilham em sua memória... vamos!, aquele diamante... não ignore! faça uma joia! a vida passeia por aí enfeitada com essa coisinha, orgulhosa, num casual braço esquerdo... e quando achamos que já passou por muito, veja!, ela sacode a pulseirinha num chacoalhar de dar engulho, remexe-nos em náuseas. vaidosa, ela quer um cordão e um par de brincos, de pedras duras, escuras, engastadas em olhares alheios... que combinem com seu vestido, que façam inveja aos mais tristes. "essa moça casou comigo", diga! "eu casei com essa..." a ela devo tudo, "talvez convenha chamá-la de alteza". e ela só se ajoelha para receber a morte, e haverá de recebê-la como a coroa que lhe falta na cabeça.
Eu e a menina começamos a ter a linguagem do sofrimento. Só falávamos quando estávamos tristes. Quanto mais tristes melhor. Mais digno de resposta. Mais bonito. Embora, às vezes, nojento. Eu precisava ter uma cãibra pra ligar. Ela precisava ter um câncer pra atender. Nossa amizade foi ficando um bolo de coisas tristes: angústias, minha mãe cagando pela casa; doenças na família, covardias violentas... Não havia sexo, não havia palhaçada, porque éramos velhos. Tínhamos ficado velhos de surpresa. E sabíamos através de nossas cartas, tristes, molhadas, velhas, que éramos.

sexta-feira, 30 de maio de 2014

Ela vinha logo atrás de mim na fila da farmácia. Ela vinha sem preferencial, com sua bengala. Trêmula. A pele branquinha e encarquilhada, completamente, o cabelo branquinho, liso, curto... Trêmula. A atendente olhou para ela: tudo normal! vida que segue! - pensou a atendente. Lembrei de minha avó América. A atendente chamou, deixei a velha passar e cheguei então no pescoço dela, deixando correr a língua em sua nuca, oscilando nas rugas a língua, sussurrei vaporoso: gostosa! - Ela até parou de tremer.

Então pensei em velhas em beiras de camas, tetas murchas, netos que falam na sala, sua família, seus filhos, suas irmãs beijando meu rosto... As tetas despencadas como bexigas vazias no quarto. A porta azul claro fechada. O chão de tacos. Os meninos trepidando na sala. O videogame ligado. A cama tremendo. A porta azul fechada claro. A velha e eu no escuro.
Adoro cartazes! Nos manifestos sempre levanto a cabeça. “Filma nós!” –pequenas cartolinas; “Legalize já!” – hidrocor, me lembra infância... Lembram gente jovem, cartazes. Cartazes são pueris! Sinto-me bem com essa contribuição de gramas num mundo tão grave. Meninas e meninos. Meninas primeiro! Lindas. Ostentam cartazes muito diferentes. Umas são vadias. Outras, muito decentes. Mas eu gosto mesmo de cartazes... lembram a "revolta da cantina" na escola de minha infância: “Bolinho estragado jamais será comprado!” – e... como a gente persiste com frases bobas na cabeça! É por isso que não sabe nada que importe, a gente. A menina linda, loira, os cabelos contra o vento, escrevendo em cartolinas sobre pedras portuguesas cartazes que vão mudar o mundo. Juntaram o dinheiro da merenda e compraram cartolinas. A menina de apenas 17 anos. Quanto? Quanto ela e seu cartaz não são melhores que eu no fim de um livro?

quinta-feira, 29 de maio de 2014

ah, basicamente eles viviam pra provocar sensações. vendiam a imagem mesmo! não... sem dó! sério! vendiam a imagem deles. real. porque um ator exigiria um personagem, mas eles não. eles não se escondiam atrás de nada! eles apareciam, faziam um papel. mas se passavam por eles mesmos. tudo que eles falavam era como fossem eles mesmos. então, dependendo de como ele atuava... por exemplo, hoje numa praia... se ele desse de gay, você diria: "está ali um gay, um cara libertário, um cara de tanguinha..." mas a mesma pessoa, visse ele num palanque - e eram sempre extremos que ele ocupava -, acharia que ele era hitler. era assim... era uma profissão estranha mesmo! era feita para especular vagas para personalidades de sucesso. que personalidade era mais popular? que personagem seria melhor para as celebridades? que causas defender? que ideia ter sobre isso ou aquilo? - eram suas questões! e o contrato rezava que eles não podiam falar que eram personagens, nem comunicar a sua profissão em público. mas eles eram tipos assim mesmo. hoje eles eram brancos, amanhã eles eram negros!

quarta-feira, 19 de março de 2014

eu estava deitado no quarto. era madrugada. eu precisava dormir por causa da dieta. e por causa disso eu parecia classe média. de um lado havia um abajour; do outro, a cabeça de minha esposa. tentei ler um pouco do cubano. li um conto de havana. entrei em outro mas não terminei. então resolvi apelar para a maconha. abri a gaveta. lá estava a latinha de bala. peguei o bong no congelador. coloquei água. plantei o fumo e traguei com raiva. mas a minha cabeça continuava me contando histórias para bois despertarem.

domingo, 2 de fevereiro de 2014

A MINHA PICA

num cômodo branco. sentado num canto. esperando nada. ali sentado. e o jô, atrás de uma porta branca, o jô também branco. passasse de lá para cá, uma outra porta branca que se abre do outro lado. de maneira que o jô passa como um rato gordo contrastando gorduras e mais gorduras com a parede branca. ele passa, quica sua pelanca. ele passa, branco como a parede quase. mas eu sei o que é reto e o que é redondo. e eu coço o caralho por baixo do short de pijama. coço, pra ver se ele olha. e o jô, muito de canto. indo sem parar de uma porta até a outra, toda hora me esguelhando. o jô, de canto, olhou. aah olhou sim! olhou! o jô, correndo, manjou.

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

doeu não saber que horas eram. mas eu era todo sentir a borracha no chinelo. atravessei de volta a avenida, da cozinha. uma escola de samba. entrei sambando na mestre sala. confundido aquilo com a cuca. olhei meu corpo dormindo no sofá, estirado em ser minha mulher. era ela. ali. eu era quem olhava, pensei que era olho, pensei que era o que olhava. isso foram três passos ou mais. que não contei. sei da tv ao meu lado, ali naquela altura. devolta a sacada de novo. de novo o olhar na janela. pra te contar esta história. pouca. e besta.