quarta-feira, 26 de novembro de 2014

PRAIA DA LUZ

um mar negro de óleo lança ondas negras monstruosas contra a porta de madeira de uma clínica pobre. as ondas são ondas sobre ondas, espessas como se dez ondas em cada. turbulentas, cuspindo espumas, atritando na própria crista. sou atendido na última saleta à direita pela recepcionista. "ou será uma dentista?" não pergunto. minha mãe sofre de uma doença estranha, dorme a todo instante. no que entro no consultório, o primeiro ao lado direito de quem entra na clínica, ela dorme novamente. o médico é velho. e minha esposa comporta-se como um coringa numa canastra suja. mais alguns segundos e preciso segurar mamãe nos braços e de pé, despertá-la. movê-la até uma cama no recinto. ela não veio com a gente na barca. o médico faz cara de "nada me impressiona!". o mar continua jogando as ondas largas, fortes contra a porta. o mar tem uma intenção? subo para o segundo andar: casa do médico na ilha. é mais bonito que o primeiro! quero usar o banheiro. pela parede de vidro vejo nadar de lado um elefante. "o que faz ali e como o mar se fez tão claro de repente para que o veja?", não pergunto. por que de lado, de maneira a mostrar seu perfil para mim?, não questiono. "talvez ele não exista visto de cima!", não penso. já no banheiro com azulejos e pisos 1980, pequenos e esmaecidos, penso que vou peidar e acabo soltando uma pasta granulada, marrom mirrada, como se fosse a merda pálida de um gato, na cueca branca. "que faço com um short vermelho na clínica?"; "porque tivemos de pegar aquela maldita barca perigosa até este lugar com ares de quem saboreia férias?", não indago. "e quanto aterro feito para afastar o mar!", é o que exclamariam olhos de homens admirados com a civilização. "como fizeram esses barrancos de proteção? os tratores devem ter trabalhado ali quando o mar estava calmo!"; penso. "o que aconteceu com a praia da luz?", não pergunto. até o oceano agora entra por outro lado, e a rocha enorme em que subíamos para fugir da arrebentação ameaçadora sumiu, a rocha de divisa da praia da luz com o oceano! montes de areia em seu lugar. o mar é uma fera faminta, um viciado em vidas em ápice da crise de abstinência. rosna ondas encarcerado pela areia frágil! minha esposa usa o outro banheiro da casa. e eu saio a vasculhar o sobrado do médico, ando por corredores estreitos, desconfortáveis. num cômodo ele tem uma parede de gavetas. mas antes vou à cozinha, ver como aquilo tudo se sustenta! é o último cômodo, a cozinha. volto ao aposento do meio: de uma extremidade a outra, tanto horizontal como verticalmente, grandes gavetas, gavetas suficientes para vestir com fartura uma festa com cem convidados nus. estou abrindo gavetas alheias. e tenho em mãos peças de banho de minha mulher. hesito entre guardá-las ali, "como apareceram subitamente em minhas mãos?", não há esta curiosidade. removo pequenos montes de roupa dobrada. pego os biquínis molhados de minha mulher e esboço despejá-los na gaveta. acabo deixando-os sobre o móvel, que já não ocupa toda a parede no sentido vertical. pego uma camisa do médico, preta, de abotoar, mangas curtas, com pequenas estampas verdes ou azuis quase imperceptíveis. fica muito justa em mim. eis que ele aparece.

_parece com uma minha, mas a camisa é sua! - a minha expressão tenta dizer que caguei nas calças, circunstâncias que deveriam desculpar eu usar a camisa que nem me era confortável.

ele faz cara de que algo está fora da ordem. "será o médico o meu juízo, a moral?" - não pergunto.


"cadê minha mãe?", não pergunto. minha mãe deve estar dormindo. minha esposa aparece; no hall, eu, ela e o médico. ela ainda é o coringa na canastra. agora movido para o meio das demais cartas. como se um parceiro bisonho houvesse enfiado uma sequência de quatro cartas no jogo definitivamente sujo e finalmente houvesse batido, majorando o desperdício e encerrando nossa derrota,  o mar, a clínica, a moral...
chova, faça sol, subam homens em palanques, flutuem com ou sem asas e auréolas, coloquem meu pescoço sob a lâmina, viagem ainda mais longe no espaço, inventem algo superior à luz... desça um outro dos céus, ressuscite-me ou me transforme num frango... que eu me disfarce insinuando humildades e ainda que eu seja concomitantemente meu próprio diabo massacrando a mim mesmo e a minha imagem, continuarei sendo meu deus! confesse-me, serei eu meu deus... árduo, duro, doador, amável, enrugado, com ou sem glória ou adoração... não há escolha, não são necessárias manchetes de jornal, eleições... tirania total, absoluta! é comigo mesmo, e nem mesmo um púlpito para isto!

"Se os ternos morressem, quanto de falsidade restaria?" - Perguntou-me isto e, em seguida, gritou "Viva a hipocrisia!"

terça-feira, 25 de novembro de 2014

o que se remete é uma coisa de esperança difícil, restrita. em escrever se não excluem somente os analfabetos. algo se procura. algo quer se construir e quiçá virar alguém. há um processo de fazer para um leitor. é o processo do sucesso. e há um processo de construção do leitor, sem rótulos, sem gênero e para além do bem e do mal!

domingo, 23 de novembro de 2014

chove em manaus

é mesmo um mundo grande! chove em manaus. cães fecham seus olhos em carpetes felpudos... ciganas ganham a vida para auspiciar menos que isso de conforto a quem lhe dá uma mãozinha. no mar alguns homens se perdem atrás de peixes. em londres meninos caminham de fraque e em belém nem deus sabe o que acontece. chove em manaus. tempo pra ver isso tudo tem um homem do outro lado do cachimbo. varanda. mesa de mogno e um pé de jabuticaba. na casa ao lado joana vela um corpo. meninos em moçambique comemoram um gol de pelada. chove em manaus. e os homens no brasil se focam atrás dos vidros numa menina que diz "eu te amo" para outro em paris. chove em manaus. é mesmo!

domingo, 16 de novembro de 2014

imagine a costela
o em torno por dentro
como um copo
raspá-la da carne com uma espátula
até o branco dos ossos
a coluna, pense
espessa, os humores, líquidos...
como caldos de comida

a medula espinhal passeada de larvas
a esfera dos olhos recheada delas
imagine  o que imagina agora
como posse dos vermes
ditosos, donos, gordos... sem ossos
no chão
dentro de seu caixão alguns dias descido
depois de uma pontada no peito
esticada no rosto roxo
e a queda na sala sem respeito aos utensílios
a dor até o fim

como você não quis imaginar
e com muito mais medo do que quando o fez
as veias dilatadas de pânico

pense bem!
pois é isto o mais certo amanhã
que se pode imaginar:

quando nem mais ossos
muito antes
nem mais você

terça-feira, 4 de novembro de 2014

dar ao menino o gozo
cheiros e gostos que a mãe não possui
beber o amor que resta escapando de um ápice do menino

é como saber que acaba
e ter coragem por isso