sábado, 26 de novembro de 2016

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

AS REUNIÕES AMIGÁVEIS DEVEM SE BASTAR.


Hoje penso assim: se eu quero questionar o amor, Deus, os desejos - isto é problema meu e merece a descrição e delicadeza de ser retirado do convívio comum e pessoal. Minhas verdades e desejos são antes "meus" do que "verdades" e "desejos"! A minha inclinação para investigar, assim como o que me apraz que seja o objeto investigado, são muitas vezes minhas investigações e não das rodas de que participo. Colocadas, se tanto, num blog, em livros. Em suma, veiculado em meios discretos de existir e não nas rodas amigáveis. Ali os encontro e converso com eles se participo de valores convencionais pertinentes, se a isto estou disposto. Claro que algumas rodas "rebeldes" me possibilitam a temática de questionar desejos, o amor, deus... São, enfim, rodas filosóficas de fato! Mas elas nunca possibilitam a autoanálise no sentido de análise da roda em si, os motivos de estarmos ali quando não parecem tão nobres e cristãos devem ser escondidos por delicadeza etc. Para unir uma roda, qualquer que seja, ou mesmo duas pessoas, são necessários enganos, ilusões de mútua compreensão ou de interferência. Os comensais creem, cada qual, que com as suas verdades (opiniões) podem alterar as verdades dos outros, os próprios outros. Normalmente, lecionamos nas rodas, nas mesas, com nosso tom de voz, nossos gestos, nosso apetite em dizer o que dizemos, e não própria e exclusivamente com o que dizemos. Se é impossível alterar a realidade de outro? Diria que é impossível não fazê-lo, mas não como queremos com as palavras, não apenas com o verbo - cru, sem corpo - pretenda. Portanto é absurda aquela proposta bíblica de que primeiro veio o verbo e depois o mundo, a vida! Precisamos entender que os discursos emanam da vida, são complementados pelas circunstâncias. Quando você pensa dizer algo com as palavras, pode o estar negando com o corpo, com ações, gestos, tom de voz. Também pode não estar conseguindo a atenção necessária para transmiti-lo com seu devido peso. As pessoas prestam atenção muito nelas mesmas nas rodas, policiam-se, querem ser antes de tudo queridas ali. Quanto a serem ouvidas, basta que tenham a sensação. Sair de uma reunião achando que o que você disse num dado momento será levado em conta em proporção à força ou à fraqueza que o fez dizer,  em relação proporcional à sua necessidade, mesmo ignorando esta força ou esta fraqueza, é pretender-se um Deus. É uma megalomania distraída de si, talvez a megalomania em sua forma mais nociva, quando ela começa a esperar como se lhe devessem resultados tais e quais. A força ou a fraqueza, a necessidade são suas, os outros a ela nada devem. Exceto se assinam um contrato  (melhor que tácito), mas estas são rodas profissionais, ou seja, pouco amigáveis.

quarta-feira, 23 de novembro de 2016


Ela se aproximou como se a vida entrasse dentro de mim. Cada vez mais fundo. Era o frio de dentro quem me tremia. Sedento do calor de alguém de fora. Ah, essas emoções! Eu já estava trêmulo na espera! E se prolonga o beijo - Aí, meu amigo, não tinha Deus por linhas retas que escrevesse direito.

só para um demônio teríamos de dizer quem somos.

ACASALADOS

Penso em todos os homens e suas costelas estofadas, as pernas de depois do serviço, dos ressaltos da vida, o coração no peito esquecido, tórax fartos de gols; e abdomens, de feijões. Penso nesses animais estirados no sofá como cães na coberta, ainda famintos do mundo. Do mundo tarados. Acasalados. Amansados por dias demasiados repetidos. Quanta coisa acontece se lhe mandam um beijo?

terça-feira, 22 de novembro de 2016

OPINIÃO IMPRÓPRIA

enquanto só vemos a realidade que nos dão pra ruminar, enquanto nosso discernimento só serve à nossa separação, só de estarmos todos sós é feita nossa união.  desconfio das cabeças com uma própria opinião quando os pés de quem opina não pisam um próprio chão. 

domingo, 20 de novembro de 2016

SENSATEZ

...não era apenas não ter para onde ir por falta de bens ou outros recursos. era não querer fazer mais nada em troca de nada lidando com os homens, nem mesmo com a minha família, eu não queria pedir que me ajudassem, não queria falar com meus irmãos, não queria vender uma casa (já havia não recebido pela venda de uma), não queria lhes vender meu trabalho, não queria ter de lhes cobrar ou mesmo esperar algo em troca, não queria ensiná-los a tocar um violão, não queria assinar um contrato, não queria sonhar com eles, nem lhes dar as mãos, nem mesmo numa cirandinha, nem queria mais lhes dizer o significado de uma palavra, não queria encontrá-los, não queria ajudá-los ou me fazer de ajudante de um mundo melhor; na verdade, eu já não tinha esperança em compartilhar com eles uma música, uma poesia... repreendia-me até mesmo o hábito de imaginá-los, de lhes dar uma informação de rua, de trocar algumas palavras mais... nem sei como eu ainda conseguia lhes dar "bom dia!", bem, acho que assim eles me notavam menos! era por isso que eu escrevia livros, e não cartas: só conseguia acreditar um pouco em gente distante que eu sequer podia imaginar, desconhecida, talvez do futuro ou... talvez as pessoas sensatas tivessem arranjado já algum jeito de cair fora de tudo isso! mesmo que esse jeito fosse a loucura ou a morte! certamente! não havia nem mesmo um endereço de amigo ou de lugar que me admitisse ir, apesar de tanta gente simpática! tudo que eu queria era estar longe deles, mas não havia fuga física, o silêncio de um corpo os inquietava. para manter a distância, havia apenas palavras e dinheiro. talvez eu estivesse doente, mas eu não queria ir ao médico! a doença era tudo que me restava, e eu a chamava de "sensatez".

sábado, 19 de novembro de 2016

O APAGADOR AMÁVEL

Apertando um pouco a visão para aguçá-la, consigo ver algumas ideias escritas no quadro-negro de nossa ignorância, assim dispostas: 

Verdade:
Justiça; Liberdade; Igualdade...  

Outras se dispõem em letras muito pequenas, é difícil deduzir aqui do fundo da sala; no entanto, me falta coragem de me aproximar e fazer realidade do que é temerosa suspeita. No mais, o professor, Sr. Conveniente, é muito rigoroso e não tolera inconveniências: dúvidas. Resolve-me a espera, na aula da Sra. Dor - muito mais construtivista, por sinal -  farei um esforço, levantar-me-ei. Se encontrar lá escrito o que parece daqui do fundo ser "Amor", juro que apago! É isto ou matar aulas e cantarolar nas alamedas desta travessura: "Ah, a vida não é algo tão de se saber, mas de se gastar".

Eis que a aula da Dor vai começar, muitos alunos saem correndo para fora da sala... alguns tropeçam e não conseguem sair, outros trouxeram analgésicos para dormir em plena aula. E a professora entra dizendo assim:

- O sr. Conveniente já lhes explicou o que é útil crer para a civilização, não é mesmo? Agora lhes fará bem um pouco de verdades! O caso é que cada qual se aprofundará na matéria quanto mais puder suportar-me. Os que trouxeram analgésico podem sair da sala! Quanto aos demais... Acontecerão aqui aprendizados muito inconvenientes e de utilidade ainda duvidosa.  Mas sabemos que todos os grandes gênios tiveram de, bem ou mal, frequentar minhas aulas. Mais gênios foram o quão assíduos e atentos aos conteúdos. Bom, o que cada um aprende aqui é diferente, porque é muito particular... Ao contrário do que muitos dos senhores pensam, estou aqui pára ajudá-los na vida! Eu os aconselho, se não quiserem ter que assistir mais aulas dessas do que o necessário, a não saírem alardeando os teores de nossas lições por aí, aprende-se mais solitária e silenciosamente, até mesmo porque a maior parte dos teores é incomunicável...

A verdade não precisa de crentes. A civilização, sim!

A RESPONSABILIDADE

Responsabilidade é algo referente a um todo que não podemos fazer responder, sequer compreender. Que o homem a assuma é sua maior ousadia, uma vez que ela jamais poderá ser individual em nenhuma circunstância. Exatamente porque sempre deverão haver circunstâncias. Assemelhar a responsabilidade à verdade é tarefa do orgulho humano, em que este se encontra debruçado por milênios. Que responsabilizemos e falemos em indivíduos "culpados e inocentes" ou "bons e maus" nada tem a ver com uma "realidade" descoberta, mas com uma "realidade inventada", uma espécie de utopia que precisa ser defendida, tal como: "liberdade, justiça...", em outras palavras, trata-se de fomentar uma crença conveniente. Muitos pensadores se gastam agora nesta defesa: "O homem é responsável, e quem pensa diferente é canalha!"; "Quem pensa assim... Não dá nem para conversar!"; "Eu não sou uma alface!"... É claro que, neste caso, eles ainda não têm inclinação para discernir uma "Necessidade Funcional", uma "Utilidade Civilizatória" de "Verdade". Como? Não sabem que muitas mentiras - inclusas as cotidianas individuais, as gentilezas, os dogmas etc. - são necessárias à construção e à manutenção do que chamamos "civilização"?! No fundo, tais pensadores, como investigadores, são antes anedotas. No entanto, não sejamos cruéis para com eles, como se fossem responsáveis pelo que dizem. Fato é que se empenharam e continuam se empenhando em serem úteis à sociedade, natural que esperem o troco. Nisto são como a "responsabilidade": útil, necessária, mas em hipótese alguma verdadeira.

ele já possuía os principais ingredientes para a grande tragédia : um grande prazer em viver e algumas esperanças.

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

A ESTRADA DE TERRA

Sento-me de manhã sob o sol, e vislumbro num meu dilema a sua segunda hipótese, a hipótese mais desconfortável para os meus afetos. Tendo entender nela o que seria tolice e inteligência, quais suas consequências. Um bom punhado de afetos sobreviveria a qualquer uma das escolhas, portanto não me ajudam a decidir. No mais, que me importam as consequências se não tenho projetos? Ou será meu projeto a falta? "Sim, penso que ter tanto aparato fez da casa um mausoléu! Mas e não tê-los?". Ocorre-me então a falta do projeto, a falta de ter a razão como guia objetivo... E a falta de projetos é a única coisa que nos faz ver os outros sem ser como ferramentas ou empecilhos? Num segundo instante, "olho" para trás, talvez para ler um projeto em meu percusso, um plano de mim mesmo escondido, há tanta neblina no caminho de voltar no tempo. Não consigo me ver direito, entender a necessidade no caminho até o agora. Não acho para mim um fazer que não seja um evitar. Sou um "desistir" que não achou outra coisa que tentar ou que quando enxergou que o melhor era ser bandido, já se encontrava domesticado, cristão, cidadão honrado. Digo-me que estou cheio de cansaços de convívio, que jogar com outros como pinos é imprudência. Alguma coisa parece ter me enganado, ter me roubado. Penso que foi a proteção de um contato com a realidade. Vejo as pessoas ornadas, vejo as pessoas ante os espelhos, vejo-as se preparem... Pessoas se embelezando segundo a moda moral ainda são pessoas, talvez isto, mais do que qualquer outra coisa, sejam as pessoas: mecanismos de autoembelezamento. Enganei-me com relação a alguma dura realidade quando a beleza delas consistia em me emprestarem conforto: generosidade. As próprias pessoas foram minhas maquiagens. Trabalhei-as para isto? Nesta altura parece que tenho fome de substâncias desgarradas de adjetivos. O que fazer com as pessoas? 

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

ALEGORIAS E ADEREÇOS

o traje a rigor do rancor é pena

escrever é a cela em que exercito minha máxima liberdade

eu conversava muito com a moça
e como um dor com que se acostuma
ou como um amor que se consome
a minha voz foi entrando em sintonia com que era tédio
as palavras minhas já não carregavam no colo um sujeito novo
eram bengalas de um velho batucando em sua piedade

em certa altura da evolução, o que ascende da ameba supera o que descende de Deus.

no meio do caminho da dor que quis te dar um tapa na cara tinha um cérebro
no meio do caminho do amor tinha um cérebro 
calculista

eu gosto dos homens que cabem na roupa, são como manequins por quem passo. mas eu mesmo tenho o destino de ir do que quer que eu seja. e as roupas, parece-me, não tem cabimento!

as pupilas semicerradas, metade vendo com os olhos; outra, com o pensamento.

o que eu acho interessante no amor é que ele é o lugar em que mais interessa o que a gente sente.

em que a responsabilidade se divide, se multiplica a negligência.

co-habitante

em mim, este sedento, mora outro, satisfeito, entediado. ele não gosta de comida, de música, de sexo, não pensa poesia. as palavras são presentes, não têm passado, não vão em frente. não substituem o silêncio, são interagentes.

Duas cabeças se confundem mais que uma.

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

esta ambição de ser importante pra sociedade só é menor que aquela de ser inútil pra ela.

EXCESSO

- suspeito que nossa psiquê seja este labirinto em que consumimos nossa inércia. podemos viver com muito menos conceitos e ideias, com muito menos atividade cerebral... a utilidade aí não parece ser nossa, e nos faz engendrar que sirva então a um ser vindouro como uma espécie de ferramenta aprimorada. o pensamento, este é o nosso excedente! ainda não sabemos como utilizar, como aproveitar, em que trilhos colocar este potencial, o pensamento ocupa-se de coisas vãs... tolas...  atrapalha inclusive o sono. nossas atividades mentais em larga escala não são em nada primordiais para sobrevivermos. é como se o cérebro sobrasse... e porque há esta sobra é que somos humanos. se algum dia nossa alma já não for um excesso, digo, se ela se ocupar como um órgão vital ou se tornar útil como nossas mãos, nossas pernas, nossos pés... seremos tão automáticos e objetivos quanto um organismo em que tudo se emprega fundamentalmente para o florescimento da vida, talvez como uma planta... talvez quando nossa alma se tornar fundamental peça à capacidade de vivermos, de saúde, outras partes de nosso corpo se tornem excedentes, supérfluas. tornem-se heranças de um ancestral ultrapassado. é possível que membros úteis para o homem atrofiem e sejam amputados como o rabo de um animal doméstico... por enquanto, esta suspeita aqui registrada, entre tantas outras coisas, não passa do produto deste excesso.

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

poucos têm alma, a maioria tem um sistema operacional.

hUgO pElLeRa

DEFESA DE BRUTUS

A César o que é de César. É de César o uso impiedoso do punhal.

o diabo é o rabo que deus esconde por vaidade.



CHOVEU

Sempre há o lado mais vulnerável. O lado que começa, mantém ou resta mais interessado. Não se tratam de verdadeiros valores diferentes, proferidos por um Deus ou pregados num mundo ideal, mas de avaliações de um para outro, de outro para um, que serão inevitavelmente diferentes o mais aproximadas que sejam. Apreciações desapercebidas do conceito de justiça. Em outras palavras, "o que eu sou para você" e "o que você é para mim" não possuem pesos iguais. E mais, também difere minha e a sua força de suportar a imagem que nossa se desenha no outro. O que me fez intuir que, logo logo, iríamos mesmo nos referir um ao outro versando como injustiçados. 

Contudo, antes da separação, levanto estes atenuantes, estas pré-compreensões que momentos quentes não propiciarão. Sabemos desde então, meu amor, que um deve acabar primeiro que o outro suas necessidades, suas vontades, suas veleidades... E não necessariamente o mais essencial confeccionado pelo hoje, será o mais essencial confeccionado pelo amanhã, pois tenho agora minhas circunstâncias - presas no agora, do agora dependentes - quais me aproximam e me afastam de você; e você tem as suas presas aos seus instantes. Por que deve mexer tanto com nosso orgulho que as circunstâncias, os expedientes nos afastem? O "querer" sempre dependeu de todas as coisas em volta e por dentro de nossas vidas, o querer pelo outro sempre dependeu antes de necessidades satisfeitas. O "ir encontrar o outro" demanda tantas coisas menores, como passar um batom ou fazer a barba. Ah, e venha contemplar comigo, são ainda tantas coisas involuntárias, surpreendentes para nossa pouca previsão de sapiens. Veja, meu bem! O involuntário começa dentro de nós a bater em forma de motor fundamental! O que sofre em nós, sendo assim, é também prepotência, meu bem. O que sofre a separação como uma morte é prepotência, é altíssimo orçamento próprio e ignorante.

Sofremos porque num dado jogo deixamos de ser prioridade. Mas o deixamos de ser como o viemos a ser. A diferença, o contraste que não suportamos, deriva de uma deficiência em nossa visão: Você pensava que eu livremente a tinha escolhido, nisto ignorava todo acaso que a trouxera até mim. Agora me enxerga sozinho num palco vazio protagonizando o ato de abandoná-la. Ah, meu bem, não vivemos num universo de pureza! Cruel foi quem colocou entre nós a miragem demoníaca da rejeição, da traição, do abandono. Todas essas coisas só parecem sórdidas enquanto contrastadas com os vapores de um mundo ideal e perfeito. Se um dia fomos um para o outro um reflexo generoso de nossas imagens: "nobres, belos, deliciosos aventureiros..." Tal felicidade já não encontre a mesma oportunidade de acontecer. Sabe que eu, pela intensidade incomum daquela alegria desde que nos demos as mãos, já intuía sua raridade? Quem sabe ainda possamos concordar em: "Parece que foi efêmero demais!"

O que houve entre nós foi espaço para que nos projetássemos um no outro, foram forças tantas, muitas incógnitas, que para esta possibilidade atuaram. Foi uma brecha no meio de tudo que permitiu que nos víssemos por um átimo. Este "átimo" logo pareceu muito apertado, então pelejei, pelejamos, em fazer deste acaso, um lugar mais espaçoso, até para que pudéssemos deitar lado a lado. Aproximamo-nos então, querida, menos para ver o outro melhor do que para ver o nosso reflexo melhor no outro. Contudo, nossas pretensões nos enganam, sobretudo porque querem ou precisam nos enganar. Nossa pretensão nos diz que o outro se delimita em ser nosso amante, mas o outro obrigatoriamente terá de representar mais papéis na vida: terá de ser filho, pai, irmão, amigo, profissional... Esta multifuncionalidade nossa agiu para nos tornar interessantes, a mesma agirá para nos desinteressar. Muito mais há nos impulsos alheios de alguém equilibrado do que apenas nós, apenas um outro. Até mesmo o impulso sexual, que nos esboçou exclusivos na tela, pintará muito mais do que nossa imagem. Ah, e nossa pretensão gritava: "Já está boa a tela! Pare! Pare por aí!" Adivinhe que mesmo o impulso sexual é muito criativo e versátil, por mais que num dado momento tenha se sugerido limitado em nossa homenagem. Que queríamos, meu bem, era exclusividade ante tudo? 

Pois então! Quando o cotidiano que não é tão meu como eu sou dele - e dizer diferente disto é falsa bravura, tola bravura, porque afinal de contas tantas vezes quis faltar ao trabalho e não pude! - enfim, quando todo meu mundo tornou a me dar espaço e oportunidade de você existir, diz-me em recado sucinto, em tom que adivinho indignado. Ó, quem me dera eu esteja errado! Diz-me:

- Nos momentos de falta de opção eu sirvo!

Ora, mas foi a oportunidade rara que nos uniu, foi a falta que nos uniu supondo o outro um preenchimento. O caso é que quando a falta agiu em nos juntar a primeira vez, pareceu-lhe coisa preciosa, em resgatar-nos agora, parece coisa pouca, mesquinha. Meu desejo por você, ainda existindo, tendo sobrevivido a largos interstícios, parece ofendê-la. No mar do acaso penso que deveríamos ter apreciação melhor pelas oportunidades, se fomos ou pudemos ser um para o outro gratidão com a vida. Fato é que, ao contrário, agora reflito pouca coisa para sua vaidade.

Tudo bem! Entendo que as circunstâncias que a cercam, entre quais vejo brilhar o seu orgulho indomável como o meu, entendo que as circunstâncias que um dia nos uniram, agora, outras, confluem para nos separar. Assim deve ser! Seu orgulho não gosta da disposição do espelho que sou, da tela que pinto nosso caso. Talvez porque você veja como pintor de meu querer apenas o Instinto Sexual. Mas, minha querida, não por indelicadeza minha, mas da vida ou de um Deus, é que este costuma sempre dar o primeiro traço com o pincel das paixões, isto é, senão é o Instinto Sexual o mágico que faz aparecer a nossa frente, sem nos darmos conta, a tela para que pintemos o amor, a felicidade com outro! E o espelho que sou? Ah, anda refletindo tantas outras coisas, quiçá com o aço oxidado no fundo do vidro, pois sou um objeto sensível exposto ao tempo, cada vez mais corroído antes do fim. O mesmo oxigênio que me faz viver, me desbota, me desgasta, me corrói.

Se sofro algo, então, com esta sua lamentação, é o descompasso com o mundo. Sofro, mas dura pouco, porque é como sofrer por algo inevitável, como querer calor para ir ter com o mar e chover e fazer frio. Como preparar as pipocas e faltar energia. A nossa faltou no meio de um filme? Ah, para que interpretações tão indignadas? Precisamos agora de ódio como combustível?

Enfim, trata-se de algo ter se alterado, um espaço foi fechado, provisoria ou definitivamente (posto que a vida é finita). A porta bate com o vento, tendo sido deixada aberta por um nosso esquecimento! Muitas são as coisas que funcionam entre nós além do meu parco controle humano, nada divino! Outra força motriz  entrou em jogo, outra prioridade se sobrepôs. Quando arranjei uma brecha novamente, ela lhe pareceu um meu oportunismo infame! Quis encontrar meu olhar com o seu, mas seu orgulho, força também de movê-la, fê-la virar o rosto. Que dizer? O dia parecia iniciar lindo, preparei-me para fazer um piquenique contigo, mas choveu! Choveu, e atrapalhou aquele meu reflexo belo em você, o tempo entre nós me enrugou, o vento despenteou-me deselegante, o charco no caminho de abraçá-la sujou-me todo de lama. Agora você não pode mais me refletir senão desta maneira. Sei, porque também sou ego por lei da vida, que parece mais reconstituinte à sua imagem ante você mesma esta forma de vingança. Mas advirto que você está a se vingar da vida. Talvez mesmo a negar a força vital que faz do mar sujeito que traz e leva! 

Então você termina de lapidar este adeus, imaginando tê-lo visto na rocha de minha ausência (nem rocha eu, outro inseguro no meio de tudo, tinha certeza que era!), no vento que soprava em seu ouvido, ouviu como minha a indiferença da vida. Peço desculpas? Ó, por você visto a roupa de culpado e dou voz a todas as circunstâncias incapazes de dizê-lo: "Desculpe-nos!" "Desculpe-me, meu bem!", devo dizê-lo, pois quis ser tudo para você, e tudo continuo me esboçando: "Desculpe-me!" Sobretudo por não poder dar a você o respeito por sua singularidade. Nada é igual, tudo espera tratamento diferenciado. Foi como não podia deixar de ser.

Ah, mas a sobriedade diz outra coisa: Antes de eu ter uma vida, uma vida me tinha; antes de eu ter uma verdade, uma verdade me possuía; antes de eu poder prometer algo à sua pretensiosa vontade, tive de prometer a várias outras, mesmo por sobrevivência. E é assim desde que nasci filho não de mim, mas de outros! Quantos são os outros hoje com força a nos subjugar como pais e até como deuses?

Bom, mas agora quer também meu orgulho ver neste gesto seu o acabamento, mesmo que prematuro, do "adeus". Ele encerra uma arte bonita? Torço que sim! Não quis fazer no meio do caos outra coisa senão esta que se pretendia bela! Quis que uma troca de prazeres no meio deste caos viesse a existir, para além de nos consolar, entusiasmar. Não era isto que você também queria? Quem sabe queremos o "amor" exatamente porque nos sentimos pequenos no meio de tudo! Queremos o amor exatamente porque somos apenas um pedaço de tudo, a agir muito mais nas brechas que o tudo nos permite. Se a pintura não é lá de um Van Gogh, tem em sua constituição as pinceladas possíveis de um mundo tantas vezes urgente, com decisões que devem ser tomadas nas pequenas lacunas que possibilitam sermos além de objetos, sujeitos. Ah, se houver apêndice nesta obra, quero lhe dizer: "Calma, minha querida! É só uma chuva redundando gotas em nosso telhado, outros amores, desta farta rega, vingarão. Calma, minha querida! Choveu, e é só isto!". 

quarta-feira, 9 de novembro de 2016



três quiques - DA SÉRIE COISAS OBSCENAS

a sala era bastante espaçosa. as janelas coloniais ladeavam o aposento, envoltas em cortinas rubis. ela levantou o vestido até as coxas, sentada no sofá, abriu as pernas. ergueu-se e sentou no colo de outro rapidamente, três quiques e disse:

-isto é para você sentir que eu posso ser de qualquer um!

(hUgO PeLLeRa)

terça-feira, 8 de novembro de 2016

tez clara - DA SÉRIE COISAS OBSCENAS

- Merda! Qual o nome daquela atriz pornô? Estive com ela esta semana, digo, numa gozada qualquer. Uma pequeninha, cabelos finos, longos, pretos, tez clara...

- Sei não!

-Putz, cara! Esqueci o nome dela. Agora ela vai pensar que não era amor!

(hUgO PeLLeRa)

SUJEITOBJETO

Carlos comprou roupas.
Roupas atraem Carlos.
O frio faz as roupas atraírem Carlos.
Uma costureirinha pobre fez estas roupas no norte.
A fome e a cooperativa fizeram-na costurar.
O amarelo das roupas agrada Carlos
A cultura disse-lhe: representa ouro
A ciência disse-lhe da importância do Sol
A arte diz que o amarelo é quente.
Carlos quer se vestir de vivaz agente.
Nem mesmo querendo, ele quer somente.

Um elogio não deve intensidade, mas verossimilhança.

mal-entendido


ninguém sabe sob que pressão as palavras saem. ninguém sabe o tom, tampouco os pontos afirmam o jeito. dos sentimentos ninguém sabe aqueles que vazam e os que ficam no peito. o que interpretam e não me leva é o quanto fico insatisfeito.

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

EU JÁ SABIA

Olha, Laura, claro que fui descendo a rua de nossa separação cabisbaixo. E se descia é porque vinha despencando do auge de alguma euforia. Na verdade pode ser que a rua subia! Estava tão em mim, nem sei lhe dizer se chovia naquele... dia? Ah, aquele momento me fez um sujeito sem cenário, pisando ideias tantas... Palco de que seria? Lembro agora, flagrando meu engano, que eu pensava que você chegaria por trás, colocaria a mão no meu ombro e me pediria pra voltar... Ia por ali por aquela rua de ir, que em certa altura ainda poderia ser a rua de um resgate. Porta batida, virá Laura atrás de mim? Cada passo me encaminhava mais ainda pro "nada valho!", aumentando a distância de ti e as impossibilidades de minhas fantasias. E as ideias tantas numa verdadeira algaravia! Pensava também que você não viria, tardava um próximo passo de ir, mas meu orgulho tornava a pisar adiante. Quiçá eu parecesse um bêbado pra quem via. Transeuntes outros, que me causassem algum pejo de existir, havia? Não sei se entrava num beco sem saída, numa rotatória, numa rodovia... Imaginei nas minhas costas você vindo, mas tive pudor, medo também, de olhar para trás e redundar uma indiferença da realidade na rua vazia. Esperava só o peso de sua mão morna em meu ombro. Ah, a rua vazia... Terei olhado e visto ou só com ouvidos na ausência dos seus passos percebia? Esta indiferença que na vida eu tão bem conhecia! Desde mais moço, quando, "praia programada", chovia! Tanto imaginei, que deixe pouca possibilidade para as surpresas. Tudo eu previa naqueles meus passos sem destino. Inventava coisas além do abandono que cada vez mais se estabelecia. De maneira que qualquer coisa que acontecesse arrancaria de mim: "Eu já sabia!" Ah, Laura, a solidão, um pouco, nos acrescenta uma quase onisciência inútil à alegria: a consciência dolorosa das possibilidades que não acontecem.

O VELHO BRINQUEDO

que será feito de mim? eu que fico. que sou fácil. se as pessoas amam com a imaginação e estou presente a ponto de já não as deixar me imaginar? houve pessoas que esboçaram me amar, mas eu fiquei à disposição e com isto fui esquecido como um irmão que se torna um empecilho na disputa por algum brinquedo, aliás, melhor, tornei-me o brinquedo que foi ganho - quando mesmo? num natal? num aniversário? - anos atrás e agora está esquecido num canto apesar da sirene ligada clamando que brinquem comigo. fui virando irmão, fui virando segurança e já não era delas a liberdade, deram com um quintal e divertem-se entre si rolando uma bola nova enquanto envelheço num canto suscitando sonhos antigos, descartados, esquecidos. parece que só prometo coisas que as estacionariam e elas precisam seguir adiante, ainda que insatisfeitas vez ou outra, ainda que colhendo tristezas no caminho. mas, é claro que não posso ser tudo! até mesmo porque me devorariam quando tivessem fome. ah, mas é duro apitar ainda, e nem digo que não convenço, tenho muitas verdades a dar, o que acontece é que já não seduzo! as verdades são tantas vezes enfadonhas, cruéis, intragáveis. para suportar as verdades que encontro, invento uma arte de moldura que as faça, senão belas, menos feias. ah, mais vale recolher-me, economizar as pilhas de minha monotonia. não dou muito espaço para que me imaginem. brinquedo de donos esquecidos, às vezes ainda tropeçam em mim, de forma que me tenho encontrado como um empecilho! será que há por aí, alguns que pensam me amar ao amarem o que pensam de mim? importo-me com o que é feito de mim? há circunstâncias! e elas não me configuram este sujeito ou objeto sempre! ah, o brinquedo que fui, antigo, já puseram no lixo! acho que o que dói nos ímpares, ex-pares, é ficarem sozinhos no presente. a separação é uma espécie de ensaio da morte, ela nos diz que de ali em diante só podemos ser o enfado, a tristeza do outro, a saudade. nunca mais o prazer!

Nota.

 não julgar moralmente o sistema, o julgamento moral pertence ao sistema.

terça-feira, 1 de novembro de 2016

- Os mais ambiciosos se põem do lado dos derrotados.

HOMEM SIMPLES

- A gente só precisa de um pouco de verdade, moço Deus, para saber quão mais belas são as nossas mentiras!
será que conheço uma história de dois humanos que partiram em busca da verdade e acabaram se matando antes do fim? será que conheço uma história em que outros dois partiram em busca da beleza e se abraçaram no fim? eu não lembro direito! não sei se conheço... eu tenho de escolher em qual acreditar?
Quando Laura foi amada a primeira vez, é que ela descobriu ter espírito. Aquelas coisas que ela ouvia declamadas por seu amante pareciam tão mais belas do que ela mesma ante ela nua ante o espelho, que Laura começou a querer sair de si e se transformar naqueles significados. É! É assim que ela vai acabar morrendo!

tenho a impressão de que...

...quando Deus escreveu "david e golias", Ele se esqueceu de dizer que era uma obra para os pequenos.

venci várias derrotas. coisa que os invictos perderam.

EM CERTA ALTURA DO CAMINHO DESERTO

a moça disse assim:

- mas será a realidade isto?

eu respondi:

- mas também, o que que a gente tá fazendo atrás da verdade? vamos atrás da beleza que o caminho fica mais bonito!

- a verdade me promete um grande poder.

e eu disse com sinceridade, dando meia volta:

- então vai, feia!