segunda-feira, 31 de outubro de 2016

não tenho a menor pena de mim. quanto a você, sinta-se à vontade.

AMANHÃ É MUITO LONGE

pode ser pequena, mas fabrico minha própria alegria. dão-me demasiada injustiça? torno-me um deus. aceito a alegria do meu bicho. fala muito em injustiça quem acredita em promessas ou que o mundo lhe deve algo. supõe-me tão imbecil aquele que me promete uma felicidade que ele está vendendo, que o considero ingênuo e acho graça. não me apraz correr atrás da alegria ofertada nos comerciais, os comerciais não são para mim, tenho orgulho de colher, de encontrar... muito mais do que sou grato por me terem ofertado. gosto daquela alegria logo ali, num copo de água. gosto do sol, gosto das flores, sobretudo em copas altas. deito-me num banco sob elas e tenho um céu bordado de cores. as alegrias grandes em forma de moças de revista, as tecnologias de última ponta não são para mim um ponto de onde começarei a viver melhor. amanhã é muito longe para reconhecer como felicidade a minha saúde de agora.

é tão difícil ser quem somos, que devíamos nos sentir realizados só por consegui-lo.

para Darlin  Muller

FELIZES PARA ABACAXI!



É um tanto complicada a história do sacolão. Escolhia frutas. Bananas, maçãs. As bananas estavam apodrecendo. As maças; gosto das durinhas. Mal maduras.
"Eu daria minha vida por uma sacola maior e você, menina. Eu te amo. Vamos com as frutas?". Cartei milha melhor cantada, "seremos felizes para abacaxi!" A princípio, fez pouco alho de mim. Mas ao cruzarmos o caixa teve ciúmes moranguinhos d’eu numa caixa tão bonita.
Eu sabia que poderia apaixoná-la ouvindo "Habanera", porém os CDS estavam todos numa mistureba dos diabos. Liguei a máquina de lavar e nos abraçamos gostosinhos no frio da uva. Julho.
Domingos, calçávamos frouxos chinelos de dedo e ,ó!, beira do córrego. Lá tiritávamos, tirava os chinelos e pés nas pedras geladas no fundo da corrente.
Era um mago quando as couves enverdeceram e o CD dos tenores sobre a mesa tosca de madeira. Uma imagem de Santa Maria rogava olhos miúdos por nós pecadores? Olhávamos saudades em fotografias: julho suspirava-nos. Amenos feito brisa e folhas.
Ganidos no quintal: chegou coelho, nosso cão branco. Comia tortas e o que comíamos. Corria atrás das crianças brincando. Depois que vi que era engraçadamente torto e o rabo como lhe pesava às vezes.
Belo dia chego em casa, as luzes apagadas, ela chorando mil cebolas. Um feijão bafejava quase toda a rua. Ela ouvia "Habanera". Pensei, "mexerica dos “tumatis”!".
E nos reapaixonamos edredons e fronhas frescas melancias que era tempo. Fresca de orvalhos ela me esperava branca espontânea nuvem.
Os lençóis- rosas esmaecidos -, não sei como posso tê-los reminiscências d’ontem tão ontem mesmo; e tudo era claro. Ela discreta de mil sussurros coniventes.

Limões que C vitaminem!

vistia-se bem para que quisessem despi-lo!

esta coisa de procurar o profundo me parece tantas vezes mais não querer ver o real. que temos a ver com "o que as coisas são", esta tentativa não se satisfaz com o que aparece.

não sinto falta de minha juventude, talvez saudade de ter pouco passado.

ENTRE NÓS

Para nos relacionarmos, por natureza, colocamos algo entre nós. Relacionamo-nos com copos entre nós, com Deus entre nós, com uma música entre nós, relacionamo-nos até com outras pessoas entre nós. Os objetos de interesse comum são nossa sintonia. Quando nos relacionamos diretamente um com outro, gozamos, às vezes até nos reproduzimos; isto é, se esta relação direta com outro não é um modo de interagir com um terceiro.

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

ESGOTAMENTO

De repente, tudo é sobra. Monotonia. Enfado. É preciso mais do que qualquer coisa esquecer. Entra-se em desespero! Sigo passarinhos enquanto o necessário passa do ponto de cozimento. Preciso crer de repente num deus que invento apenas para que ouça meus gritos que outros não suportariam. Peço-lhe: Deus Todo Poderoso, construa paredes em torno do que lembro, pois quero que o mundo possa ser uma novidade e já não aguento mais apertar no agora tantos passados. Em troca disso eu prometo, Meu Deus, nunca mais fazer sínteses! Deixar as coisas como são, injustas, incompreensíveis. Quiçá, meu Deus, possa eu também, muito a seu agrado, não questionar mais nada! Pinte o céu de cores variadas, faça dele um pijama tropicalista, danem-se os epiléticos!" Falo com este Deus e escrevo para que você tenha sossego, meu amigo! Sou vasto, intenso e interminável... Estou a vida inteira numa mesma brincadeira. O pique está comigo e corro atrás de uma sensação que está do outro lado da mesa. Ela me atrapalha com as cadeiras! Damos voltas e voltas, às vezes paro e talvez consiga enganá-la. Pique com ela, ponho-me a correr até esquecer por que corria, e quando aquela alegria encosta de leve os dedos em mim em pleno trânsito, quem me pega é o tédio das ruas serem tão parecidas. O fato é o descompasso! Dentes cerrados, piso em cada passo esta afobação contida em nome de uma normalidade de fácil acesso: Venha agora meu amigo, entre! Mas, espere, já não tenho mais nada a lhe dizer! 

a dor de alguém.






como é difícil ser alguém!

ver o sol se pôr e se dispor ao tempo.




olha a despreocupação do alvo

no seu centro mesquinho

e a mão trêmula do arqueiro!




é mesmo triste ser alguém

em lugar de fumaça que sobe

sem se angustiar

ou pretender arte da sorte

ou temer qualquer mistura

sem zelo avaro pela forma

sem vontade que de com a cara no acaso.




ai! alguém entre construções,

à procura, permeando ruas, becos e vielas

sob o julgo de olhos, ouvidos e narizes.

sentidos vigias de mãe e de cães famintos.




olha a indiferença da garrafa

nas borbulhas que solta afogada!




como é duro ser alguém

e ter o hálito horrendo dos dias que amanhecem

postar sorrisos e cumprimentos fatídicos a alguns

indecente, remetê-los vazios de intenção.




é duro demais!




atravessar intacto críticas e trânsitos

dos que também atravessam na transversal

carregando crenças até das descrenças.




ah! vê o líquido

- cicuta ou elixir -

e o recipiente impassível ao gole.




ah! vê o descaso do crivo:

à bala perdida que venha parede

ou a carne de uma infância.




ah! vê a poesia sem ânsia de ser lida

como o livro é aos olhos que permeiam:

indiferente à página que atingem.




ai, que duro então não é ser gente:

angustiar-se na consciência da morte!




ser gente de negócio então...

programar montantes

borrando o papel com a tinta da vida

de enfileirar algarismos.




amargo! até que nos fechem em féretro

e o primeiro verme nos promova a algo.

o primeiro furo sem dor, sem pose,

sem contrações de carne, sem pudores sapiens.




sem alvoradas

não abusa mais de nós o amor:

tenor do canto dessa majestade

subjugando-nos a ninharia.




olha essa coisa corriqueira:

"a moça na janela

enquanto ela aguarda

o príncipe pelas vias atrás dela

à janela carcomida tanto faz

se ou se não por seu vão algo acontece.







aaah! que faz o remorso dos seres de atitude,

os pensamentos, as culpas...?




como é pecaminoso e doloroso ser alguém

invés de algo.

sujeito "engano" objeto.

"encontrar um sentido para vida"  partem à procura, quando esteja tão claro de que se trata antes de "inventar algo em que se possa acreditar. o que implica que "o sentido" dependeria antes de um "dom de iludir-se", "enganar-se", de "poder acreditar naquilo" do que de "desvendar uma verdade". os profissionais tendem a fazer de suas profissões, para melhor aceitá-las como destino, as mais importantes do mundo, há anedotas a este respeito! não nos percamos, se me dizem "encontrar", o hálito é de quem acredita que a Verdade vai salvá-lo, que há algo encoberto que precisa ser desvelado e que é a cegueira que nos impede alguma perfeição, definição. mas não seria exatamente uma "ilusão verossímil", quiçá uma "falsa descoberta" como as religiosas, o que nos possa tornar salutares, o que nos poderá dar um sentido para a  vida?

QUAL O GRAU?

a decisão quer se igualar à morte, no sentido de ser definitiva? as coisas que inventamos como brinquedos, consolos etc. em quais provisoriamente acreditamos e investimos... independente de seu sucesso ou não (que seria o sucesso?), digo, independente do prazer que nos devolvem aqui e ali em seu curso, não nos fere por não ser definitiva? e depois novamente, novas indefinições. até a entrega completa à indefinição, até a dúvida quanto a si mesmo, até o ignorar os impulsos...e o que não são impulsos? ou entregar-se de vez a descontinuidade protagonizada pelos acasos, pelos estímulos mínimos de fora que nos fazem lembrar isto ou aquilo, que nos levam assim para lá e para cá sem grandes razões identificadas, enfim, viver dia-a-dia como um Caiero, sem ousar erguer mais nenhum propósito com a janela dos fundos voltadas para tantos intentos evaporados. por outro lado, seguir sempre um caminho, uma linha, não seria triste, limitador? 35 anos de trabalho, 44 horas semanais de prudência atrás da pirâmide da aposentadoria? os professores sempre a repetir, semestre após semestre a mesma essencial "ladainha". alunos saindo das salas como salsichas de "the wall"? a produção em série... as bandas tocando um mesmo repertório eternamente, mudando apenas de plateias, cidades construídas segundo um modelo funcional, parecidas... os programas de tv com situações armadas as mesmas para que se possa produzir a comédia semanalmente numa linguagem mediana que deve se pôr ao alcance de todos e qualquer um... indo em frente, o quanto nos fere a continuidade e o quanto nos fere a descontinuidade? qual o grau de equilíbrio? estendamos as questões: o quanto nos fere a semelhança com os outros, dizendo que somos apenas "mais um" e "qualquer um"? o quanto nos fere a diferença de todos, gritando que estamos sós? num átimo, tenho a impressão de que isto é tudo, de que o resto são repetições. progressões? mínimas, enfiadas em extensas redundâncias, se tanto! lentíssimas progressões, contrastando com nossas vontades efêmeras! talvez a angústia na espera por duração provenha da consciência de que só vivemos o instante. e a angústia na espera por novidade ou originalidade se daria ante o "ciclo" das repetições, dos costumes, hábitos que são caracteres presentes e essenciais do que se pretende constante. o terror do "duradouro" desejado é ter de repetir eternamente o rito que o cultiva. qual é o seu grau disto e daquilo?

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

O VAZAMENTO

nem só por estar sozinho posso escrever. há um jeito de avaliar, um certo critério do meu gosto que recusa "qualquer coisa". então eu penso na rua. não acho que fazer na rua sem necessidades. não quero ir ao mercado. desisto de pensar a rua. fico em casa, sem nenhuma vontade forte. preciso escrever um livro para jogar nele o que há de alma e ser depois só um corpo, ou seja, pouco a perder para a morte. pego o violão, toco meia canção e resta a obrigação de mais cedo ou mais tarde ter de guardá-lo novamente. não há notas e nem palavras que dizer. não há nada que queira desenhar! rabisco assim o papel. bebo um copo de água. amigos? não tenho amigos. uma época fui desagradavelmente sincero! terá sido isto? não! para nós não interessa se foi uma época apenas, um período, uma fase. não tenho amigos porque me mudei. e eles também haviam se mudado. amigos só se pode ter com condescendência do acaso. "amigos" são interpretações favoráveis! e se os tivesse, seria justo lhes entregar esta falta de objetivos? amigos foram se afunilando. larguei minha velha cidade e eles por lá ficaram e se os trouxe foi na ideia. há um que me faça um grande favor importante, algo que minhas mãos não alcançam. devo-lhe talvez o que? ouvidos? dinheiro não pode ser! paga-me ele alguma dívida afetiva? olha-se num espelho e se vê um grande generoso? precisa ver em si um homem bom, como tanto eu preciso e quero deixar de precisar? somente porque me faz um favor, não posso amá-lo para sempre! tampouco continuar amando. esta coisa de amar... reticências sempre! dúvidas sempre! mergulhos em agonias! estamos longe, esgotados os favores possíveis, migramos para um mútuo esquecimento a ser quebrado ocasionalmente na lembrança qualquer de um nome comum ao nosso ou por uma fisionomia que dobrou uma esquina.  um flash de herança da amizade, quem sabe se a causar-nos um sorriso ou menos! por tédio penso em cuidar da saúde. alguma coisa, nesta sensibilidade, me faz sentir as vísceras com alguma suspeita. serão as minhas vísceras ou serei eu delas? fico com o popular: "ninguém é de ninguém!".  "mente vazia oficina do diabo!", é a voz da vizinha 30 anos atrás. vizinha antiga, velha, quando eu era menino no meio da vila. tenho tempo suficiente para isto de me ver num calção largo, os pés descalços, costelas à mostra, e a velha na porta da casa, um vestido que se pinta de branco estampado com flores azuis e vai até os tornozelos, deixando-me ver sandálias de dedo. ela emoldurada de plantas. ela no umbral parada, sentiria o que sinto no fundo no fundo 30 anos depois? que queria velha, além de mexer com as vidas que passam? não, ela teria dito era: "quem fala sozinho conversa com o diabo!" -  "trabalha, diabo! trabalha!", penso. mas a mania de ir falando sozinho transviou-se para a escrita. quase não me flagro falando sozinho, fiquei silencioso, aceitando o barulho das coisas que se ajustam. tornei-me quieto e mental, de maneira que o filtro da casa a gotejar na garrafa de vidro parece ter mais angústias que eu. respondo hoje: tome, diabo! só você mesmo, para aguentar tanto lixo emocional, para merecer estes nadas alheios! gostaria de escrever, mas não há que consertar em mim, está tudo perfeito. sou quase uma aurea mediocritas nesta desnecessidade? sou quase? quase parece estar certo para tudo. tudo vou esgotando. os desejos são sempre kamikazes. que posso suspirar? é importante que haja um suspiro, que de nós é um resfolegar e do desejo é um grito abafado: "ah, se eu tivesse nascido em copacabana!" - o que que tem? teria dinheiro? teriam me achado? não teriam me importunado? e a beleza das estrelas é um clichê fora do céu, e a beleza do mar é um clichê na praia das letras. as estrelas, o mar... vísceras de deus? nesses momentos de transe proporcionado pela inutilidade completa, um copo de água é esquecido lá fora. e isto é um fim suficiente. a água encontra algo em mim.

terça-feira, 18 de outubro de 2016

as pessoas mais bonitas são as capazes de solidão.

DELICADAS: almas muito cultivadas, almas que dependem muito de cultivo. na selva não vingam. murcham. encolhem-se. não possuem a crueldade necessária para entregar ao outro. e mesmo com esta ideia já se assustam.

sou um homem construindo um ninho. não me entendem os pássaros em revoada. eu que para cá voei, cada alma que encontro, tento com ela construir um país. quero ir fundo, embrenhar-me. será a carência o primeiro impulso psicológico?

Almas belicosas

Há almas que se tentam fazer e encontrar como opostas a outras. Se elevam em contrapor as demais, sejam amigos, namoradas, irmãos... Arregalam os olhos para lhes encontrar algo condenável. Para achar no outro um mal, aguçam os sentidos, provocam se detendo em pequenos gestos ou pequenas palavras de um largo contexto, ainda que estas palavras sejam algo como um apêndice inútil ao fluxo principal de um discurso. Parecem almas que enxergam o mundo e a vida como uma tirania absoluta, a tirania de um Deus, tamanha, que já não podem escapar, e então querem se tornar elas mesmas almas tiranas, para que levantam a voz, e de cada conversa querem erguer a bandeira de uma superioridade. De maneira que assim as demais almas lhes parecem fazer o mesmo quando isto ou aquilo observam em sua postura. É difícil, senão impossível, ter com tais tipos uma amizade que se aproxime em sinceridade. Sua competitividade constante pela posse de uma verdade repele aqueles que compreendem que em tantas questões há apenas pontos de vista.

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

tento não remedar estilos ao remediar silêncios

MIRAGEM


onde a gente faz falta é miragem
“amor” eu não sei

tenha engolido no choro

no soluço

e o amor não se evacua

não se pode algo cuspido

ficou aqui dentro prisioneiro

não sei

me roendo




de que se abstrai?




vi palavras em closes

bocas carnudas

mil tesões me escalaram

cálices que brindam

vi lençóis e filhos

lágrimas me fugiram

e me comovi de não achar o amor

e talvez fosse amor isto

nem sob nem sobre a cama

de todos os dias e noites

e todos os corpos úmidos oferecidos




lambi as angústias

tateei fios

cortantes

as literaturas

mas não achava

e sacrifícios e ouvi alardearem

“desnorteia e norteia as vidas”

“amor”, o que era?




enxuguei lagos de romantismo

e devo admitir torácico e estomacal

no vão que deixa a alma que me falta:

“amor” não sei




ocorreu-me inventá-lo

por amor?

ocorreu-me versá-lo

chegaram mesmo a concordar comigo

nessas tecnologias




amor

de que se abstrai?

uma vontade louca da existência do que se ausenta

nem do cume febril “amor” não sei




foi plenamente ignorante do que seja o amor

que menti e disse que amava e que sabia o que era

era vontade de tê-lo tão convicto

feito adolescente o ressoa firme

e trêmulo a que lhe acreditem

era necessidade de me achar generoso amando

me perdoem: eu não sei e não sabia

não peço desculpa de que tenha me esquecido




chamei de amor as frustrações maiores

ou os casos mais intensos que tive

ora! foram mais intensos os mais frustrantes

e fui assim os vestindo nobremente

“amor”




mas “amor” não sei

sou incompetente!




é que sempre precisei dizer que o sabia

para não passar de ridículo

e para que por amor não me odiassem

mas não sei

confesso desertor da farsa




sim! abracei minha mãe

fui de beijos e de pegar em mãos

e agora penso

vendo quão ignorante sou e me resta ser

que dissimulava

chorei meu pai morto

e tudo aquilo até parecesse "amor"

mas eu não sabia




feito um macaco faria

capaz que amei e não sei

e diferente do macaco que só amaria ou não

despreocupado

eu nunca saiba

porque não sou nisso de amor de sabedoria




sei que caravelas chegaram ao brasil

que existiram dinossauros

mas se amei foi sem saber o que fazia

sem poder pensar duas vezes antes

completamente ignorante




não é verdade

meus amores

é só necessidade de dizer

eu nem sei se sei ou se não sei

ou se acertei no amor esta flecha de entusiasmo e agonia

se acertei no amor tudo que sou e não sei

e em tudo que o neguei espero ter errado


a verdade não precisa de crentes

em convívio:

com tudo que é ruim se acostuma;
com tudo que é bom se enjoa.
ela quase chora dizendo:
- você mente?
- mas não é indecente este tom que você emprega ao dizer? não será mentira essa sua pergunta que, me parece, não quer saber?

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

no caminho

não tema, juventude, ter mais da metade da vida, é uma coisa incerta. somos mais lentos que os rapazes de trinta, e mais ainda que os de dezoito, porque carregamos mais lembranças, eu, ao menos, olho mais para trás. do contrário, como é ligeira a criança que só tem pra frente a seguir, que metabolismo! e quando se chega aos quarenta,  nossa visão muda. a morte é algo interessante sob diversos aspectos. continuar para sempre se sugere já uma ideia pouco sedutora, aliás, enfadonha. ainda vivemos, para coisas mais simples, menos duradouras... mas com que sabemos interagir com nossa madura sensibilidade, a ponto de as tomarmos com a intensidade adequada, aquela que sustenta de pé nossos dias. não tema, jovem! tenho vontade de bater num religioso que me fale da eternidade da vida. acaso se chegue aos quarenta e ainda se prossiga, tudo é grandioso. a sensação que tenho é de que a gente, se for sensato, vai se desgarrando da vida como uma grande promessa, e vai com isto entrando mais nela, no presente, e tem gente que até nasce muito depois da juventude para vários mundos que ignorava. e continuam havendo flores mais importantes que as de um caixão, surgem até flores mais importantes que a riqueza. o importante é ser fértil em fertilidades.

SIMPLES

a ideia de ter é a que propicia melhor a sensação de perder.

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

Platão jogou lama em nós!

ANTIBIÓTICO

Sofra na noite fria debaixo das cobertas, bem quentinha! Sofra amanhã bem cedo, um cheiro de café pela casa, um pão francês fumegando, sofra na hora da mordida! Passe depois a mão na cabeça do seu cão e sofra quando ele apertar os olhos de gratidão, neste exato instante, concomitante às pupilas!Veja também se você pode sentir mais frio simultaneamente com esta dor: dispa-se, tome um banho gelado e veja, enquanto a água cai sobre seu corpo, se a dor ainda existe. Descubra por fim o habitat da dor, os confortos em que ela se deita, os limites em que ela lança sua urina fétida, olhe agora de um monte de sua alma o território seu que a dor conquistou. Não  entregue para ela mais nada, reduza a circunscrição, vá tomando da posse dela, aos poucos, as possibilidades que ela lhe impede.

terça-feira, 11 de outubro de 2016

e se eu nascesse em Paris. eu acho que nunca iria me dar conta de ser um parisiense. sou um tanto etnocentrista, depois de egocêntrico. eu acho que em Paris não se saberia olhar para lá como se olha do Brasil, na verdade o que vale é o meu olhar. se eu nascesse em Paris, por cargas vejo um pão de baixo do meu braço e levo na cabeça o nome de um padeiro conhecido... não! aí seria Itália! se eu tivesse nascido no Brasil... mas não foi mesmo neste país que eu nasci? olha bem pro meu nariz! se eu nasci aqui, sou apenas este homem sentado, corpo todo paralítico, escrevendo sem muita esperança. se eu nascesse e morasse em Paris, olhando-me nascendo aqui no Brasil, diria de lá que este que nasci aqui nasceu pra jogar capoeira!
escrever é uma espécie de ordem, disposição que inveja um deus. aquilo que se saiba seja muito pouco! demoramos muito tempo para saber, subimos muito alto ou cavoucamos demais para o fundo. muita terra jogada fora, restara talvez uma pepita que nos chame a atenção. o saber fica ali, no cume de um monte de esquecimento. de todos nossos atos do dia, poucos são frutos da sabedoria. dançamos conforme os buracos. escrever é uma espécie de arranjar-se. de terapia. é um jeito de lidar com tanta sujeira ideal.demorei muito tempo, tive de subir monturos, para cravar a bandeira nisto. escrever é uma espécie de ordem, não para quem procura, mas para quem se encontra perdido.

se a gente é de ferro

o que nos é mais magnético, eis o amor.

PROFESSORES DO GOSTO

Como que uma antipatia nos redesenha um corpo! Como de relance, por uma agressão que nos cometa um julgamento, uma figura começa a condizer com o que há de ofensivo! Uma simples noite em que ouvimos desaforos de uma pessoa qualquer é capaz de nos provocar pesadelos e nos tornar incapazes de ainda separar no agressor o que há de infame e admirável, incapazes de entender o momento do outro como atenuante num primeiro instante. Como, num segundo e terceiro instante, em que nos encontramos mais serenos, ele, corpo e alma, ainda está atrelado ao grosseiro! Como antipatizamos então com a distância da orelha ao queixo, da cor de pele, da cor de cabelo, da extensão de uma boca, do contorno dos lábios, do sorriso, do caminhar, das roupas últimas em que o lembramos, dos seus assuntos prediletos! Como queremos nos afastar do alcance de suas mãos, como distar dele se torna nosso prazer... Ele agora é reinterpretado por nossa sisudez, nosso rigor e impaciência. Se havia um traço dele que poderíamos julgar feio, algo que a amizade ou um bom afeto insistia em ignorar ou mesmo atribuir graça de originalidade, o traço então nos apareça torto e indesculpável, tudo nele se perde, tudo se torna grotesco. O defeito no agressor se torna um merecimento, e um mal de que padeça nos evoca a gritar “Justiça!”. De maneira que, nossos agressores, ou nossos inimigos, ou adversários têm o poder de moldar o nosso gosto. Nossa definição do que é belo é o que ele não alcança, nossa definição do que é feio é o que se lhe assemelha. Assim também nossos mais queridos nos ensinem o que é beleza. 

terça-feira, 4 de outubro de 2016

por que escrevo?

retirando minha obra, sou extremamente desnecessário. erguida minha obra, torno-me apenas inútil.
o estalido. o "smack" onomatopeia do beijo é quase que da luz que poderia clarear um mundo, permitir meu avanço passo a passo, um relâmpago. um piscar de olhos. uma mágica de dizer "estou indo nessa! você não é tudo!". um prêmio de consolação. um eufemismo de "contigo não deitarei!". 

moça, sou um homem velho.não tenho 40 anos só de vida. tenho 40 anos de olhos. pense nisto. veja isto se puder. muitas coisas ouvi estalarem. e somente quando criança comprava caixas e caixas disso. hoje eu preciso de mais. não me venha com "smack!" ou me vingo com "beijo pra você também!" 

amigo dos amantes

por vezes olho para os amantes - com verves exaltadas, embriagados de paixão - com admiração. sou feliz pela felicidade deles, que é uma felicidade possível do mundo, que é o sorriso do outro, um significado de forma de paz e entendimento humano. sei que um homem saciado é menos nocivo. mas vendo-os assim, do chão, tão tãos... não tenho a menor vontade de entrar na fila da montanha russa em que vão.

meu primeiro mandamento

tenho por hábito ou vício sentir-me bem com quem se sente bem comigo.

deus é tão generoso com aqueles que falam por ele, como padres ou pastores! nisto eles ganham em verve verossímil: "graças a deus!" - é como se dissessem: "graças a deus vocês todos se reúnem para prestar atenção em mim, porta-voz de deus, levam-me a sério, posso influenciá-los, aumento meu poder". isto! levem-me como coisa mais séria e importante! quando digo o primeiro mandamento não é orgiástico? "amar a deus acima de todas as coisas". sei então que eles voltam é para o meu terreno: a casa de deus, pois só assim o amarão acima de tudo. e ainda disfarço minha pretensão falando em nome de outro, falando tudo que quero. não é isto que Ele quer?

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

ei, cara, continue tentando a beleza. achando a beleza sua. não diga que ninguém está vendo. não faça pouco assim de você.

o senhor pode dizer, já que é um senhor, que o que digo é muito estreito, mas o que eu digo de fato é muito pouco sobre mim. é preciso deixar de crer que falam bem de nós estes formulários.
às vezes as pessoas por quais eu mais me interesso, eu delas rápido me despeço. porque são as pessoas que mais me podem trazer alguma decepção. eu acho que sou assim, meio covarde, sabe? a vida é tão louca. nossos hábitos às vezes são tão contrários aos nossos desejos. quase como uma estratégia pra enganar um deus sádico.

um sujeito bom mesmo?

é aquele que sabe que o mundo não lhe deve nada.
sobre a casa pequena você tem que falar no primeiro dia em que você sai da casa grande. a casa pequena quase que só cabe o que tem em nossas almas. o quanto de espaço amplia uma sala, o nosso amor? e o quanto um mesmo afeto a diminui? uma casa pequena é cheia de coisas quando em contraste com uma casa grande, ou seja, quando se sabe o que é uma casa pequena. uma casa pequena é fumar um cigarro beirando a chuva  porque sua mãe de 1933, na sala, não aceita o seu vício de apenas vinte três anos de idade. uma casa pequena, se tiver jardim, é só um vaso procurando o ângulo de luz de uma janela. mas a casa pequena mesmo é aquela em que só cabe a gente. a maior casa em que morei era a casa em que se esperava meu pai voltar do trabalho. a casa mais triste é grande como um deserto em que não há quem entenda sua vida como uma poesia. mas isto é só a voz de uma nostalgia. e a vida é muito mais do que sentir falta.
a vida é feita só de preconceito. tudo que é dito. isto! as palavras. mas a questão é que para tudo há graus aceitos ou não. um homem não vive a 1.000.000 e nem a 0. é preciso achar na corda bambíssima que é existir o seu peso, no seu pé, saber muito antes do que em sua cabeça, quem você é.