segunda-feira, 29 de setembro de 2014

ACONTECEU COM CRISTO



"criança, não mexa nisso, se não você descobre

e depois...

...quebra!



- hUGO pELLERA mELACOCCI

domingo, 21 de setembro de 2014



se a política está em tudo

não deixo de fazê-la agora




se a política está em tudo

cuidado com quem o abraça




e pergunte se isto aqui

não é corrupção!

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

AMIZADE:


_pô, Jadson, você é um cara simpático e amigo. só tem que parar de espancar sua mulher.

_ela anda saindo de casa é? deixa ela comigo!

_anda, sim, e com cada vestido, meu amigo, que parece um filme de nelson rodrigues!

(hUGO pELLERA)
Carne de Pescoço trabalhava do outro lado da rua.Era como o chamávamos, por causa do seu pescoço duro, torto pro lado, que fazia ele parecer beijinho no ombro. Carne de pescoço tinha um bar e um bigode já com fios grisalhos. Ele tinha muita graça atendendo a pedidos. Era melhor tomar cerveja no Carne!

terça-feira, 9 de setembro de 2014

LIGEIRINHO

e eu que dava descarga no angu quando você semeava o milho? eu mesmo, que desentupia a caixa de gordura enquanto você plantava a soja, neném! e na ordem do jogo do bicho eu desencarnei vaca enquanto você enfiava a cabeça no buraco, avestruz! e, respira fundo, eu já tô peidando a feijoada que você conjectura!


(hUGO pELLERA)

sábado, 6 de setembro de 2014

aquela implicância que a minha velha tinha com meu cigarro acabou fechando a porta da cozinha. a minha velha é mais que modo de dizer. é velha mesmo! (você sabe o que é "mesmo"?). a minha velha no meio de uma loucura, a vista operada de catarata, recém adoecida de ver o mundo, a doença trocada por outra, uma película, por outra película. com aqueles olhos ela achou o dinheiro de me dar para comprar o cigarro. porque eu estava louco o suficiente para pedir dinheiro a ela pra isso. ela me deu. e fomos eu e meu amigo lino, sujeito que sabe ser amigo de loucos, comprar cigarros na padaria flor da cidade. mas depois para ela eu parei. só para ela eu parei. isso deve ser amor. penso nisso fumando um cigarro, com a porta da cozinha trancada porque ela mora no quarto. ela, a minha velha. aquela implicância com meu câncer, mãe... fechou a porta da cozinha, enquanto ainda somos saudáveis, apenas pelo possível. só pelo possível. fechou. e agora eu confundo a senhora com o vento que entra pela janela e faz a porta confessar sua folga no batente (de mágoas?), origem do tempo ou de um mau serviço de carpintaria... aquela folga. como se eu escrevesse mal em lugar de mau. maus trocados, aquela folga! dois trabalhadores importantes. ambos roem as madeiras. carpintaria? ou seria marcenaria? sempre confundo esses dois. acho que o homem mais bruto é o carpinteiro. as mulheres devem gostar mais deles. as mulheres, mais desenxabidas. isso é uma prece: "como confundo, mãe, a senhora agora com o vento que sacoleja a porta. tem cabimento confundir seu toc-toc de sherlock com o manejar das brisas?" hein, vento - você que me amamentou e que antes me esperou nove meses na sua barriga, me diga, tem cabimento? não foi você, vento, que me entregou a festas juninas no externato hilmar e um dia me deu dinheiro para comprar uns cigarros? foi logo depois do vento ter sido operado de catarata. agora ele sabe! sabe muito bem! porque enxerga direitinho, apesar dos oitenta e um anos de idade! e hoje eu não sei se abro a porta ou acendo outro cigarro!

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

SEPARAÇÃO







a minha memória tem pinceladas de tristeza. como ter ficado só com a mesa. essa mania da minha lembrança. de todos os móveis que tínhamos e algumas coisas outras tecnológicas, que gelavam e aqueciam alimentos, como o DVD do Woody, por exemplo! E a voz de Angela Ro Ro!, "depois disso tudo, eu ficar só com a mesa amarela com a risca larga branca, grossa no meio!" - é de expressar indignado mesmo, sem dúvida! a mesa... só porque foi a penúltima coisa, antes da porta, que eu olhei daquela nossa casa. aliás, "nossa" eu já não vejo há muito tempo, coisa alguma que seja "nossa". eu lembro da mesa, porque foi lá que você se despiu, cheia de mãos, mãos que tinha para me acertar a cara e não usava de desleixo. aquelas mãos enfim, foi porque escreveram elas mesmas, o bilhete e, elas mesmas, depositaram, sobre a faixa branca aliás, larga. no meio da mesa. entremeando migalhas de pão que seus dedos amassaram. o bilhete. a última coisa que eu lembro. a minha lembrança tem maus costumes, manias feias. eu até não confio em mim, por conta dela. mas a mesa era amarela, ela se agarra à lembrança, a lembrança se agarra nela. amantes perfeitos invejariam de que jeito isso se dá. esses dias quase fez uma canção com duas coisas: você e a mesa. canção que se deteve só numa rima. escapou de arrebentar nas rádios, ao menos as que poderíamos sintonizar. "ela, amarela!" - era o verso latejante e miserável, arrastando-se na minha cabeça locada pelo passado. "isso ninguém me tira!" - diz a memória, que tem manias e continua dizendo, pedindo desculpas: "só não lembro, além de adeus, o que mais dizia o bilhete contrastando seu caráter tarja-preta sobre a faixa-branca da mesa amarela. depois disso tudo, "a mesa de nossos encontros matinais (é de se expressar indignado mesmo!) ser só lembrança?!" se dar a desbotar de existência. é duro, querida. aliás, "querida" é falta de upgrade no meu sistema.